Brasil contabiliza 891 índios assassinados desde 2003

Um relatório agora divulgado sobre violência contra os povos indígenas no Brasil revela que em 2015 foram assassinados 137 índios no país, número idêntico ao do ano anterior. Desde 2003, data em que foi elaborado o primeiro relatório do género pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) já foram assassinadas 891 pessoas, numa média de 68 mortes violentas por ano.

Segundo a Agência Brasil, este número poderá ainda ser maior uma vez que nem todos os casos terão sido comunicados ao CIMI nem os dados existentes permitem uma análise mais detalhada pois não foram recolhidos indicadores sobre a idade das vítimas, localidades e povos onde os crimes ocorreram.

“A fragilidade destes dados dificulta uma clara perceção da autoria dos homicídios, se eles tiveram como pano de fundo a disputa pela terra ou se são consequência do facto dessas pessoas não estarem a viver nos seus territórios tradicionais”, refere o relatório.

O estado de Mato Grosso do Sul, onde está concentrada a maior população indígena do Brasil, registou o maior número de casos de assassinatos de índios em 2015 (36), sendo que 34 vítimas eram do sexo masculino.

Segundo o CIMI, em relação aos conflitos fundiários existe “omissão” dos organismos públicos brasileiros: “Os órgãos estaduais e federais são omissos e coniventes diante dos crimes praticados contra os povos indígenas e o meio ambiente. A promiscuidade existente entre madeireiros e autoridades locais incentiva a exploração ilegal da madeira, um crime lucrativo”.

O Conselho chama a atenção para o aumento de indígenas assassinados no Tocantins (6) e no Paraná (5): “Há, nessas regiões, um forte incentivo a projetos ligados ao agronegócio que incidem de modo intenso sobre os territórios indígenas em demarcação ou reivindicados como sendo de ocupação tradicional”.

De acordo com o documento, a expansão do agronegócio carrega consigo para as comunidades tradicionais o consumismo, álcool, drogas, preconceito e outros fatores que geram violência. “Nesse contexto, os povos originários tornam-se vulneráveis e ocorrem problemas internos, entre indígenas, e externos, na disputa pela terra”.

Na sequência da divulgação do relatório foi divulgado um manifesto da comissão Guarani Yvyrupa (na foto vemos Elson Canteiro durante a apresentação do texto) que critica a demora na demarcação de terras indígenas. A comissão reúne lideranças políticas e espirituais da etnia Guarani.

“Nos últimos anos já estávamos passando por uma situação que ficava cada vez mais difícil: a demarcação de nossas terras não progride, o governo e os empresários foram realizando cada vez mais grandes obras que impactavam as nossas terras, dizendo que agiam em nome do desenvolvimento”, refere o documento.

O manifesto também critica a gestão de Alexandre de Moraes à frente do Ministério da Justiça por alegadamente estar a enfraquecer a Fundação Nacional do Índio (Funai) impedindo qualquer “retomada dos territórios tradicionais”.

Fotografia: Wilson Dias (Agência Brasil)

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *