Cineasta ucraniano preso na Rússia ganha prémio Sakharov

Preso pelas autoridades russas, Oleg Sentsov foi distinguido pelo Parlamento Europeu.

Quando Natalya Kaplan recebeu, das mãos de Tajani, a distinção, descreveu de uma forma muito vívida a vida, as ações levadas a cabo durante a anexação da Crimeia e as torturas e espancamentos pelos quais os eu primo passou quando foi preso e condenado por atos que nunca havia cometido. “Oleg é uma pessoa que não pode desistir e apenas ficar sentado em silêncio. Ele é um lutador por natureza”.

Ao descrever a greve de fome que Sentsov fez pela libertação de todos os prisioneiros políticos ucranianos, Natalya Kaplan disse que, durante esse período “de 145 dias, nenhum prisioneiro político foi libertado, mas isso não significa que ele perdeu – graças ao seu ato o mundo inteiro falou sobre as repressões da Rússia – e isso é uma vitória”.

A familiar do cineasta ucraniano concluiu a sua intervenção com uma mensagem do próprio: “Não posso estar presente nesta sala, mas vocês podem ouvir as minhas palavras. Mesmo que outra pessoa esteja a dizer que a palavra é a principal ferramenta de alguém e, muitas vezes, a sua também, especialmente quando tudo o resto foi retirado dele”.

Antonio Tajani deu também as boas-vindas aos dois outros finalistas do Prémio Sakharov 2018: os pais do ativista marroquino Nasser Zefzafi, que está igualmente detido, e aos representantes das onze Organizações Não-Governamentais que salvam vidas no mar Mediterrâneo.

Recordando os 30 anos da atribuição do Prémio Sakharov, o presidente do PE afirmou o seu propósito: “Tem apoiado indivíduos e organizações em todo o mundo, totalmente comprometidos em lutar pela justiça social, frequentemente com grande risco pessoal”.

“Cinco vencedores do Prémio Sakharov foram posteriormente premiados com o Prémio Nobel da Paz”, acrescentou, incluindo o médico congolês Denis Mukwege e a ativista iraquiana Nadia Murada, que receberam esta última distinção em 2018.

Nascido em Simferopol, em 1976, Oleg Sentsov estudou economia em Kiev e, seguidamente, escrita de argumentos e realização em Moscovo. Em 2012, estreou a sua primeira longa-metragem, Gámer, pela qual foi galardoado com um prémio. Em 2013, tornou-se membro ativo domovimento «AutoMaidan», em defesa da liberdade, dos direitos humanos e da paz, tendo contribuído para fomentar a Revolução «EuroMaidan».

Posteriormente, durante a anexação da Crimeia, em 2014, Sentsov organizou missões humanitárias para os soldados ucranianos, fornecendo-lhes alimentação e medicamentos e ajudando na deslocação das suas famílias. Devido à suaparticipação ativa nos protestos contra a ocupação, a produção do seu segundo filme, Rhino, foi adiada.

Em maio de 2014, foi detido pelo Serviço de Segurança da Rússia (FSB), que o levou para a Rússia para ser julgado por um tribunal militar por alegada atividade terrorista. Passou um ano detido antes de ser dado início ao processo que a Amnistia Internacional viria a descrever como «um pseudo julgamento extremamente cínico». Antes de ser presente a tribunal, o FSB declarou-o publicamente culpado de terrorismo, e foi-lhe imposta, de forma unilateral, a cidadania russa, que rejeitaria.

Sentsov foi acusado de liderar uma organização terrorista, que se preparava para fazer explodir monumentos na Crimeia, sem, no entanto, terem sido encontradas provas conclusivas da sua participação em atividades criminosas. Ademais, a testemunha principal da acusação retratou-se da sua confissão inicial, reconhecendo que tinha sido feita sob tortura. Sentsov, entretanto, continuou a clamar veementemente a sua inocência. Não obstante, foi condenado a uma sentença de 20 anos e enviado para uma prisão de alta segurança na Sibéria, a milhares de quilómetros de distância da sua residência.

No seu discurso perante o tribunal, no momento em que a sua sentença foi proferida, Sentsov ridicularizou a falsidade do processo e manifestou esperança de que as pessoas na Rússia deixassem de ter medo. Sentsov encarna um espírito de resistência que se tornou uma inspiração para outras pessoas que também enfrentam opressões.

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