Costa Araújo: Pintar com a paixão das cores do Alentejo

Crónica de Luís de Matos sobre o pintor Costa Araújo: “As suas ceifeiras são de uma extrema suavidade, quer na graça de atitudes e humanidade que as torna em trabalhos únicos”.

Quero aqui lembrar um artista (pintor, aguarelista, ceramista). Para os eborenses com mais idade ele é bem conhecido, para os mais jovens talvez não tanto. Seu nome completo, José Augusto Costa Araújo.

Teve participação ativa na organização dos dois Carnavais de Évora de 1981 e 1982, a par de outros artistas como o Manuel da Costa Dias, Zé de Arraiolos, Francisco Bilou, Avelino Bento e eu próprio devido ao meu trabalho de investigação sobre as Brincas de Évora, o mestre Xico (serralheiro) e o mestre Dinis (chefe dos carpinteiros). O Costa Araújo teve um papel preponderante. Há época era vereador da cultura o Joaquim Mendes, que viria a dedicar-se à atividade da restauração que ainda hoje mantém.

A exposição “Os Povos e as Artes” organizada pela Câmara de Évora ao tempo que Fernanda Ramos era vereadora com o pelouro do Turismo, ao qual deu um considerável incremento junto dos responsáveis pelo setor, incluiu a montagem de uma estrutura com 12 metros de altura. Fez toda a diferença, um cenário tão grandioso quanto belo.

Foi, pois, o Costa Araújo o seu autor. E o mesmo se poderia também dizer de outras estruturas estudadas e desenhadas pelo artista para outros certames nomeadamente, para as Câmaras de Reguengos de Monsaraz, Portel e Alandroal.

Costa Araújo trabalhou ainda no departamento de artes gráficas e design da EPRAL. Ainda nesta escola profissional, foi também formador no polo de Estremoz na área de pintura, cerâmica e azulejo.

A par de toda esta criatividade, não deixa de retratar o Alentejo. As suas ceifeiras são duma extrema suavidade, quer na graça de atitudes e humanidade que as torna em trabalhos únicos e identificáveis pelo traço simples mas com enorme precisão.

Costa Araújo retrata a formosura da mulher alentejana com traço suave na tela ou no papel, quase sempre de chapéu com espiga e papoila e lenço colorido. Por vezes despe-a no meio da seara e da planície dando-lhe um ar de deusa mas sem nunca esquecer a raiz de onde vem.

Na sua obra o Alentejo está sempre presente através da característica chaminé e beirados, a planície, a olaria e o Cante alentejano.

costa-araujo_ceifeira

 

Podemos afirmar que Costa Araújo pinta o Alentejo como se aqui nesta terra transtagana tivesse nascido, lhe enchesse a alma e o coração, quando na realidade veio ao mundo na cidade dos arcebispos em 1947. Com 4 anos foi com os pais para Angola, estudou em Luanda, andou por Terras de Santa Cruz (Brasil) mas no Alentejo que aprofundou a estética e a harmonia do mundo rural através das ceifeiras e do Cante. A verdade é que também Angola e Brasil influenciaram profundamente a sua obra pelas cores fortes e quentes.

Lembro-me de um certo dia, sentados junto à minha secretária, lhe ter dito: “Araújo, amanhã tenho de fazer um cartaz para divulgar uma atividade cultural mas ainda não tenho o desenho”. “Não me tratas disso?” – perguntei. “Bem sei que não é assim em cima da hora, mas não me dás uma ajuda?”.

É pá” – respondeu-me – “tu pensas que isso é assim de repente?”. Deve-me ter visto com cara de aborrecido e disse: “Arranja-me lá uma caneta e uma folha de papel”. Em pouco tempo, o desenho ganhou forma e ainda hoje o guardo como um grande tesouro. Só um grande artista como Costa Araújo é capaz de tal proeza, disponibilidade e tanta bondade.

Recordo este momento com saudade e em jeito de homenagem ao Homem e ao artista que é Costa Araújo.

2 Comentários

  1. Fátima Santos diz:

    Artista plástico com uma obra notável e inconfundível, Costa Araújo tem projeção a nível nacional e, também em outros países lusófonos, como Angola e Brasil, parecendo-me extremamente relevante que a comunicação social e os críticos de arte divulguem trabalhos de reconhecido mérito, para que seja possível proporcionar a um público mais vasto o prazer de desfrutar do contacto com o artista e a sua obra. Para além das técnicas tradicionais de pintura, é sui generis a técnica de “cristais”, que confere originalidade e contemporaneidade às telas e cerâmicas de Costa Araújo. Muitos parabéns a Luís de Matos e à “Revista Sudoeste Portugal” pela iniciativa de publicação desta crónica, cujo conteúdo nos dá a conhecer parte do percurso biográfico e artístico de Costa Araújo. É tempo de dignificar as obras de arte e os artistas!

  2. Costa Araújo, artista movido por constantes desafios artísticos, tem uma obra significativa.
    É um homem notável, honesto, de uma exultação contagiante com a vida. As suas pinturas transportam a beleza, os costumes e a sensualidade da gente por onde passa. No seu percurso artístico, desenvolve várias técnicas em telas, azulejaria, cerâmica, moda, num desafio constante à criatividade do pensamento. Muitas das suas telas povoam vários continentes, nomeadamente; África, América do Sul, Timor e Europa, exibindo a sua obra por inúmeros trabalhos e exposições. Inclui temas religiosos, natureza morta, fauna e flora, crítica social, personagens da música, do cante, do desporto, acontecimentos do momento ou reportados à época dos descobrimentos. Camões é uma figura que o artista revive fascinado. O pintor inspira-se ultimamente na técnica de cristais com a harmonia de cores atraentes. O Alentejo tem na sua vida um lugar marcante demonstrado pela emoção patente nas suas obras.
    Proporciona no seu estilo figuras entrelaçadas em cadeia, para demonstrar uma “estória” levando a mensagem à sensível criatividade de quem olha.

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