Da regueifa e outros misteres

O termo é uma herança do árabe andaluz: al-rgaifâ. Ainda hoje no Norte de Portugal se chama regueifa a um pão de trigo em forma de rosca. Mas a profissão de regueifeira já estava desaparecida no início do século XVIII. E pudera! É que as pobres mulheres que se dedicavam a amassar e a cozer o pão (também conhecidas como amassadeiras) para as grandes casas senhoriais não tinham “esposoiros”. Ou seja, não podiam casar. Igualmente penosa seria a profissão de degolador, comum por todo o país até à expulsão dos judeus.

Deveria haver um junto de cada comunidade – “posto por elles, ou mandado pôr pelo Soberano”, como assinala Viterbo – e só ele podia matar os animais destinados ao consumo, tendo de fazê-lo segundos os princípios da religião judaica. No exercício da sua profissão, o degolador era obrigado a informar as autoridades locais de todos os bichos que abatesse para pagar o respetivo imposto.

Outro mister curioso era o de capadeiro que, como o nome indica, tinha por ofício a castração dos animais.

Papel importante teve ao longo da História o almotacé (também denominado almoçabel ou almotacel). Entre as suas tarefas incluía-se a de “moderador de pezos, e preços, e medidas dos mantimentos”. Na prática, era o funcionário que em cada concelho tinha a missão de fiscalizar o cumprimento dos pesos e das medidas por parte dos vendedores, além de fixar o preço dos alimentos. Em tempos de fome, ou de maior escassez, era também ele que regulava a distribuição dos géneros alimentares.

O almotacé-mor estava encarregado de garantir que a “Corte sempre seja abastada de todos os mantimentos” em qualquer ponto do país onde esta se encontrasse. Segundo as “Ordenações e Leis do Reino de Portugal”, mandadas recompilar por D. Filipe I, era ele que tinha de obrigar os “regatães” e “vendeiros dos locais” a “trazer à nossa Corte em qualquer lugar, que Nós estivermos, pão, vinho, carne, pescado e todos os outros mantimentos abastadamente”.

Mas não era só. À porta do açougue deveria colocar uma balança pública “para ver se pesa bem, e como deve, a carne que corta” e que depois seria servida na Corte.

Texto: ‘Chef’ Francisco Alvarenga

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *