Eduardo Marçal Grilo: “Educação, Conhecimento, Desenvolvimento”

Pré-publicação de texto do ex-ministro da Educação, administrador da Fundação Calouste Gulbenkian e presidente do Conselho Geral da Universidade de Aveiro no livro “Portugal Acontece”, agora lançado pela editora Caminho das Palavras.

1) A Educação não é o motor do desenvolvimento, mas também não haverá no mundo de hoje criação de riqueza e crescimento económico sem que uma qualquer sociedade, país ou região disponha de uma investigação científica capaz de gerar conhecimentos e tecnologias bem como de um conjunto vasto de recursos humanos qualificados e com formações avançadas que possam contribuir para a inovação dos processos produtivos e para o desenvolvimento de novos produtos e novos serviços.

Esta é uma afirmação que parece razoavelmente consensual tendo em conta que o crescimento económico depende sobretudo de uma convergência de fatores muito grande e onde têm especial relevância a estabilidade política, o equilíbrio das contas públicas, o funcionamento do sistema de justiça, a robustez do setor financeiro, a estabilidade do sistema fiscal e a eficácia da máquina do Estado;

2) Nesta perspetiva a educação, a formação profissional e a produção de novos conhecimentos ganharam uma importância que as tornam pilares de um desenvolvimento que assenta na criação de novas empresas nascidas da iniciativa de quem é capaz de fazer novo e diferente, tanto na área de fabrico de novos produtos, como na prestação de serviços inovadores que simplificam a vida dos cidadãos e das organizações;

3) Portugal fez, nos últimos vinte anos, um grande esforço no sentido de qualificar a sua população. Desse esforço resultou a existência de um número significativo de recursos humanos muito qualificados que têm vindo a lançar no mercado um conjunto de empresas cuja dimensão em diversos setores de atividade começa a ter algum significado.

Trata-se de um processo a que devemos prestar uma atenção especial dada a importância que este movimento pode ter na restruturação do nosso tecido empresarial.

Quando se analisa a origem e o papel que estas empresas estão a desempenhar em muitos setores, seja na produção de software, na agroindústria, nas nanotecnologias, nas telecomunicações, nas biotecnologias, na indústria farmacêutica, na bioquímica, na informática ou na robótica, verifica-se que o tecido industrial está a mudar e que em breve poderemos estar perante setores com alto nível tecnológico e gerando produtos capazes de competir em qualquer mercado à escala mundial. Muitas destas empresas têm origem em iniciativas que partem das universidades e dos institutos politécnicos ou que têm como promotores jovens empreendedores que decidiram criar a sua atividade própria assente num novo conceito, numa nova tecnologia ou na criação de um novo produto ou serviço;

4) Este é seguramente o caminho que irá conduzir à modernização da economia, que é um dos grandes desafios que a sociedade portuguesa tem de enfrentar com seriedade nos próximos anos.

A responsabilidade por esta modernização cabe em primeiro lugar aos empresários e ao mundo empresarial, mas as Universidades, os Institutos Politécnicos e todas as instituições onde se formam recursos humanos com formações avançadas, e onde se faz investigação e produz conhecimento, são também elementos essenciais para a aceleração deste processo que, por sua vez, é de grande importância para o crescimento e o desenvolvimento do país;

 

8) Em termos de contexto para as atividades de educação e formação podemos assumir que o ensino e a aprendizagem vão sofrer no futuro algumas grandes alterações. A escola tal como a conhecemos vai certamente estar sujeita a muitas modificações resultantes do rápido processo de digitalização que está a ocorrer em praticamente todos os setores de atividade.

A escola, a forma como se ensina e, sobretudo, as modalidades de aprendizagem vão entrar num processo de mudança em que os grandes protagonistas são os próprios alunos e estudantes que já nasceram nesta sociedade em que as tecnologias para acesso ao conhecimento e à informação são as mais diversas e em que cada um tem hoje ao seu dispor uma panóplia de modelos alternativos que obrigam a optar e a decidir por aqueles que melhor se adaptam a cada um ou a cada grupo.

A velocidade da mudança é muito intensa, sendo que a aceleração dos processos levará à necessidade de se equacionarem continuamente as conceções que temos da escola, da sala de aula e do relacionamento do professor com os seus alunos.

A ideia que tenho é que a escola, que se tem mantido quase inalterada ao longo das últimas décadas, vai ter de se reinventar de modo que acompanhe estes novos tempos. Isto não deve, no entanto, significar uma perda de qualidade das aprendizagens, que é o grande objetivo da escola e que deve ir ao encontro do que pretendem os alunos e os estudantes, ou seja, valorizar-se e preparar-se para uma atividade profissional desempenhada em qualquer setor da vida económica, cultural ou social;

9) Como síntese quero deixar claro que atribuo à educação e à formação uma grande importância para o futuro do país, embora tenha de reconhecer que a educação dos jovens não é, por si só, um fator determinante do desenvolvimento se não se criarem no país as condições que favoreçam o investimento público, e em particular o clima empresarial, através de incentivos ao investimento privado e estímulos às empresas dos setores exportadores.

O investimento em educação e formação será sempre reprodutivo a médio e longo prazo, mas tem de ser acompanhado pela evolução e modernização das empresas, que são o verdadeiro “motor” da economia.

Pela minha parte, penso que o esforço que tem vindo a ser feito na área da formação de recursos humanos qualificados e no setor da investigação científica e da produção do conhecimento vai certamente ter resultados muito positivos no futuro próximo, em particular se o clima político for favorável ao desenvolvimento do setor empresarial e se internacionalmente for possível atrair para Portugal o investimento de que os empresários portugueses não dispõem para poder fazer crescer a nossa economia;

10) Em termos de conclusão podemos afirmar que Portugal, (i) com a qualidade dos recursos humanos de que dispõe; (ii) com as instituições de formação que integram os sistemas universitário e politécnico; (iii) com os centros de investigação científica existentes e (iv) com a produção científica que tem demonstrado, constitui hoje um país atrativo onde valerá a pena investir em unidades de produção e em centros de desenvolvimento e tecnologia com capacidade para competir com qualquer outro país do mundo ocidental.

No final do século XIX, os trabalhadores rurais em Portugal iniciaram uma corajosa luta por melhores condições de trabalho. Depois de gerações de miséria e fome, a Revolução de Abril semeou a promessa de uma Reforma Agrária. Na região do Alentejo, estes camponeses ocuparam grandes propriedades onde antes eram submetidos ao poder dos seus patrões. 

Diz-se no Alentejo, que quando se perde alguma coisa, quem procura deverá começar a andar para trás e voltar ao princípio. Reza-se e pede-se a Santa Luzia que nos cure dos olhos, para que possamos olhar melhor e ver.

Os protagonistas deste filme, resistentes desta velha luta, a quem foi roubada a infância e a escolaridade, contam a sua história às gerações de hoje, nas suas próprias palavras.

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