Europa preparada para o Zika

O vírus Zika, que se acredita causar microcefalia nos bebés infetados, tem estado sob os holofotes da imprensa mundial nas últimas semanas. Roberto Bertollini, cientista-chefe e representante da Organização Mundial de Saúde na União Europeia, diz que os cientistas estão prestes a controlar o vírus e que uma “pré-vacina experimental” poderá ser desenvolvida nos próximos 15 a 18 meses.

O vírus foi descoberto em 1947. Por que razão ainda não existe vacina?

Trata-se de uma das muitas doenças que conhecemos, mas para a qual não há vacina porque estão limitadas a certas zonas ou têm efeitos relativamente suaves, como acontece neste caso. Só recentemente foi dado o alerta com os primeiros casos de microcefalia na Polinésia francesa em 2013-2014. Agora a situação é muito mais grave e a opinião pública e os governos exigem mais estudos.

Quanto tempo demorará até encontramos uma vacina? Qual será a probabilidade do sucesso?

Penso que será bem-sucedida. Temos muita experiência com a vacina do ébola. Fomos capazes de encontrar uma vacina quase completa para o ébola em muito pouco tempo. Estamos muito otimistas, acreditamos que podemos desenvolver pelo menos uma pré-vacina experimental nos próximos 15 a 18 meses. O surto de ébola foi uma grande lição para muitas pessoas. Houve uma grande mudança nas atitudes.

A UE corre o risco de ser afetada pela doença? Qual o cenário mais pessimista? E a melhor hipótese? Estamos prontos para reagir de forma adequada?

No pior cenário possível, os mosquitos chegariam à Europa e começariam a transmitir da doença. Também existe um cenário intermédio: através de algum mosquito endémico em alguns países do sul da Europa. O melhor cenário possível e o mais provável na minha opinião: temos um sistema de saúde muito forte e que agora que sabemos que o problema existe podemos detectá-lo muto rapidamente, podemos isolar a área, eliminar os mosquitos e controlar a infeção.

Temos a certeza de que a microcefalia é causada pelos mosquitos e o Zika? Ou existem outras causas possíveis?

O vírus foi isolado em bebés com malformações por isso a associação é muito forte. Mas claro que não podemos excluir outros fatores: fatores genéricos, outros vírus, outras coisas.Há quem sugira que a microcefalia possa ser causada por pesticidas adicionados à água potável, mais concretamente piriproxifena. Estamos a falar de um pesticida que já é utilizado há mais de 20 anos. Nunca foram encontrados casos de malformações. É considerado tão seguro que é utilizado para desinfetar água potável por isso de momento penso que estas alegações não têm fundamento.

O que pensa dos programas de erradicação do mosquito? Serão eficazes? O que acha da ideia de libertar mosquitos geneticamente modificados ou a bactéria Wolbachia?

Os vetores estão cada vez mais resistentes a uma série de inseticidas, Por isso precisamos de outras armas e existem três abordagens diferentes. A primeira são mosquitos geneticamente modificados que não transmitam a doença. A segunda passa pela esterilização de mosquitos masculinos através da radiação. A terceira seria uma bactérica que também tornaria os mosquitos masculinos inférteis. Penso que podem ser extremamente eficazes, mais do que usar toneladas de pesticidas aos quais os mosquito são cada vez mais resistentes.

A Organização Mundial do Saúde acabou de anunciar que vão ser necessários milhões de dólares para financiar a investigação. Espera que a UE possa disponibilizar algum do financiamento?

Sim. Precisamos de cerca de 53 milhões de dólares: entre 25 e 28 milhões para a OMS e o restante para outras instituições como a UNICEF.

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