Manuel Jorge Marmelo: “Esta Europa parece um bordel clandestino”

O ponto de partida é o teorema do macaco infinito, segundo o qual um macaco sentado a uma máquina de escrever por tempo indeterminado irá conseguir produzir um texto equivalente a uma obra de Shakespeare ou de Cervantes. A ação desenrola-se num bordel clandestino, gerido com maldade maquiavélica por Paolo Piconegro, não por acaso um deficiente preso a uma cadeira de rodas.

Eis o novo livro de Manuel Jorge Marmelo, não por acaso centrado num bordel. “Decidi ter neste livro um personagem perverso que fosse também deficiente e escolhi um espaço fechado onde a ação decorresse e pareceu-me que um bordel clandestino estava bem”, diz o autor em entrevista à SW Portugal.

“Depois percebi que aquilo se parecia bastante com esta Europa em que estamos vivendo, cercada de muros, grades, cupidez, inveja, autoritarismo, misantropia, egoísmo e estupidez”, acrescenta.

O bordel chama-se Bar Mitzvá, nome dado pela lei judaica à cerimónia em que um jovem passa a ser responsável pelos seus atos sendo chamado pela primeira vez para a leitura da Torá (os cinco primeiros livros da Bíblia). Será o único acaso do livro. Ou talvez não.

É aqui que Paulo Piconegro mantém enclausuradas diversas prostitutas e Wakaso, um migrante negro “absolutamente disponível e servil, manso e eficaz como um eletrodoméstico”, a quem encarrega de se sentar perante uma máquina de escrever na tentativa de comprovar a veracidade do teorema.

Que Piconegro é perverso percebe-se desde logo. Que, no fundo, está para o Bar Mitzvá como o ministro alemão das Finanças, Schauble, está hoje em dia para Europa é uma constatação quase óbvia.

“Gostava de poder responder que planeei tudo assim desde o primeiro momento, mas não sou tão inteligente quanto isso. A pessoa que escreve os meus livros é um pouco menos obtusa do que o indivíduo que vive no meu espelho”, refere Manuel Jorge Marmelo. “Os meus livros são, regra geral, objetos que se constroem de pequenos gestos e de decisões aparentemente aleatórias, os quais, a dada altura, começam a adquirir um sentido que me ultrapassa (não é difícil)”.

Para o autor, o teorema do macaco infinito, atribuído a Darwin, faz sentido “enquanto alegoria da evolução das espécies”: “Se pudéssemos olhar para um hominídeo de há 50 mil anos, não daríamos nada por ele e não nos arriscaríamos a dizer que aquela espécie animal seria capaz de escrever o D. Quixote ou de pintar a Mona Lisa”.

Do mesmo modo, sublinha, “creio que aqueles que assistiram à queda do Muro de Berlim não imaginaram ver a Europa outra vez enclausurada e claustrofóbica que temos hoje, que escolhe deixar morrer crianças no mar ou ameaça afundar barcos de refugiados”.

O livro é, assim, uma reflexão sobre “as ambiguidades e os paradoxos desta espécie simultaneamente capaz de fazer coisas maravilhosas de praticar o mal mais absoluto e horrível”.

 

Texto: Luís Godinho | Fotos: D.R.

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