Marta Mateus: “Farpões Baldios” nasceu “das minhas memórias de infância”

“Farpões Baldios”, o filme de Marta Mateus premiado no Festival de Cannes (Quinzena dos Realizadores) e vencedor da edição deste ano do Curtas de Vila do Conde, chega às salas a 14 de setembro, distribuído pela Midas Filmes. Pretexto para uma entrevista com Marta Mateus, que neste documentário de 25 minutos nos propõe um regresso às suas memórias de infância, quando no Alentejo se viviam os tempos da Reforma Agrária.

Como é que surgiu a ideia de fazer este filme?

Não sei bem como surgiu este filme, mas sei que nasceu das minhas memórias de infância no Alentejo. Os processos da memória são muito complexos. Aparece-nos já como uma certa ficção. Por isso navegar à vela nas nossas memórias pode ser uma viagem valiosa e fértil, em que ao mesmo tempo estamos a pensar, como olhamos e como sentimos um determinado acontecimento, que pode ser um fim de tarde em que a luz alaranjada do sol desceu sobre um campo de trigo. Mas não são só imagens, é muito mais do que isso, são vibrações, são cheiros, são sensações, e às vezes a memória de um momento aparece-nos de uma forma e outras vezes de outra, com novas impressões e pensamentos.

Por isso, para mim, esta nossa riqueza é uma ferramenta extraordinária para o meu trabalho, e para o cinema, porque pode contribuir muito para um exercício cinematográfico. Mas a resposta mais sincera será a de que o filme foi escrito de memória. Em inglês diz-se by heart e acho que é uma expressão mais profunda e certeira, porque aponta para a fonte.

O que vem do coração, o que é ditado pelo coração, onde uma memória foi guardada e vive em toda a extensão da sua paisagem íntima. Isto quererá dizer que foi escrito a partir daquilo que será já um depuramento do que de mais precioso ficou dessas vivências, e das suas dinâmicas, daquilo que vivi e que guardei de uma forma especial, às vezes de forma enigmática. O que será já também uma certa construção da memória, da minha infância no Alentejo, daquela paisagem e dos trabalhadores rurais com os quais cresci. Essas minhas memórias cruzam as memórias daquelas pessoas, as histórias que me contavam, as suas músicas, o seu idioma, os avisos dos seus provérbios. Uma espécie de memória em segunda mão, que é a memória das pessoas que acompanharam o meu crescimento, as suas memórias de outros tempo, que partilharam comigo ao longo da minha infância, que acolhi e que passaram também a ser as minhas.

 

Apesar de nunca as ter vivido?

Embora nunca as tenha vivido, ouvia as suas histórias com grande intensidade e nunca as esqueci. Como quem não se esquece de um segredo que lhe foi confiado. E o filme tomou forma, foi-se desenhando, a partir destas histórias e destas memórias, seguindo o ritmo e modos de falar daquelas pessoas, o dialeto alentejano que é ainda preservado sobretudo pela geração mais velha. Os diálogos e a narrativa do filme são o resultado de uma composição dos vínculos e tensões dramáticas que essas memórias estabelecem para mim com o tempo presente, do que ali se vive hoje.

É também, claro, uma vontade muito pessoal de lhes retribuir, devolver e partilhar o que guardei e o que me ensinaram. Os seus vocábulos estão mais do que tudo relacionados com o gesto, uma ação ligada a um contexto, a um princípio, o gesto que reúne a comunidade numa transmissão de saberes. Mas numa expressão combinatória, que se relaciona com as variações e transformações da paisagem e se desenrola infinitamente na paisagem, nas raízes das suas melopeias, através de estações passadas e futuras, como um devir. As suas palavras e modo de falar sustentam para mim um sentido e uma visão mais profunda dos signos. E foi a partir desta que para mim é uma admirável riqueza que quis construir o filme.

Para um camponês, a noite tem outro significado – escreve Pavese em O Diabo sobre as Colinas. E acredito que aqui a forma como um pensamento é partilhado, a perceção da vida e do mundo, do nosso encontro com outros, está aqui ainda profundamente ligada à natureza, com a qual preservam uma relação vital, numa realidade que os homens da cidade não podem conhecer porque não precisam.

No campo há uma necessidade intrínseca de observar o céu e a paisagem, de atender aos seus sinais. Para ali viverem, viverem na paisagem, com a paisagem e da paisagem, da natureza é preciso estar atento às suas transformações, escutar a língua que vai falando. Porque sabem que uma paisagem nunca se pode conhecer. Por isso ainda falam com a lua muitos sabem ler a canção do vento, o anúncio de um céu tórrido, o presságio de um corvo que pousa sobre as suas cabeças.

Há uma memória muito presente de uma cultura pagã, uma confiança que assenta na natureza como fortaleza última para a sobrevivência da comunidade. A partir dessa afinidade com estações, esse parentesco muito especial com as forças telúricas, submerge, num sentido narrativo anacrónico, um discurso poético que muitas vezes bebe de fontes místicas, que atravessam o tempo histórico. Foi a partir disso e com isso que quis trabalhar e construir este filme.

Os episódios das suas histórias, a história desta região, as suas lendas, os contos tradicionais são tecidos ou talvez difundidos na paisagem, que contém as suas marcas, os seus traços, os seus trilhos. Mas num território delimitado, como uma manta de retalhos, do qual não podem realmente dispor, que por força da lei não lhes pertence, que está cercado, desenhado por fronteiras. Ainda hoje no Alentejo encontramos os maiores latifúndios do país, onde soçobram terrenos baldios. Muitos foram agora ocupados por vacas. A criação de vacas não é tradição no Alentejo, contaminam as terras onde daqui a pouco tempo nada se poderá cultivar. A agricultura está a perder-se, mas agora pelas regras da comunidade europeia. Vejo estas pessoas, que são os velhos de hoje, numa casa que está a ser largada ao abandono, e que como uma criança sábia a quem a mãe está a escapar, tentam preservar uma língua que se quer esquecida, e chamar por ela. Este filme nasceu daqui, deste lugar, de muitas vidas.

Qual a razão deste tema que junta os protagonistas da Reforma Agrária e os jovens que ouvem contar as suas histórias?

Alguns deles participaram na Reforma Agrária, mas não todos. Tendo participado ou não, as dificuldade por que passaram e a sua história é comum a muitos alentejanos, à maior parte dos alentejanos daquele tempo. É estranho que a nossa História mais recente seja muito pouco contada e pensada especialmente junto dos mais novos. Por isso tinha a vontade de pôr as pessoas que viveram este tempo, os protagonistas dessa história, a contá-la às crianças. Neste filme as crianças vão descobrindo sozinhas, estão em relação com a natureza e cruzam estes tempos. Vão ao local do crime, onde as nossas feridas se podem sarar. Muito melhor que saber pelos livros será ver e ouvir, como só crera São Tomé, as marcas dessa história, nas rugas e no olhar destas pessoas, ouvir contar na primeira pessoa.

A Reforma Agrária foi para mim talvez um dos maiores e mais importantes acontecimentos no país. Por ter sido sobretudo um gesto de uma comunidade, de um conjunto de pessoas, mesmo que houvesse partidos políticos envolvidos. Foi o resultado de uma ação de conjunta, de pessoas que se encontram em volta de um problema comum, que não era um problema qualquer, não era uma reivindicação qualquer: era a fome, a falta de trabalho, as condições miseráveis em que viviam, o dizer basta de gerações e gerações condenadas à miséria. Foi um ato de resistência, de fazer qualquer coisa como podiam, porque se ninguém fez nada por eles, teriam de ser eles a fazer e mostrar que as desigualdades matam, que a pobreza extrema empurra para uma vida impossível e indigna, que sem educação e sem ferramentas é praticamente impossível inventar seja o que for. Queriam trabalhar e melhorar as suas condições de vida, e para isso agiram e esforçaram-se para mudar o estado de coisas. Mostraram que uma ação é possível.

As pessoas que viviam nos montes e nas aldeias, poderiam ter tido a sorte de aprender a fazer sapatos com um sapateiro, alguns iam para a tropa onde, ouvi dizer, “ao menos não passavam fome” e foram muitos alentejanos para as colónias africanas. Mas além de alguns ofícios que estão agora provavelmente quase todos em desaparecimento, dedicavam-se sobretudo aos trabalhos do campo e estes trabalhos além de sazonais, eram escassos.

A Reforma Agrária foi uma tentativa de rasgar com um sistema muito antigo, que condenou à miséria gerações e gerações de alentejanos, e que tem origem na construção dos reinos, na História de Portugal ao longo dos séculos. Deste tempo resulta que ainda hoje seja a região com as maiores propriedades no país. E é preciso saber isto, como isto começou. Por exemplo, muitos censos mostram que o Alentejo era, no princípio do século passado, a região com maior criminalidade. Não me parece difícil perceber porquê. Era a mais pobre.

Um dos crimes cometidos repetidamente era o de invasão da propriedade para roubo de alimentos e a destruição de máquinas agrícolas. Os camponeses destruíam as máquinas porque uma máquina fazia o trabalho de muita gente e por isso aumentava o desemprego. Estavam só a tentar sobreviver. Vejo nos livros da escola muito pouco, ou quase nada que diga respeito à ditadura que Portugal sofreu durante 48 anos com um governo fascista. E esta é uma história tão recente que devíamos conhecer profundamente, porque muito do que vivemos hoje tem também origem nesses tempos.

A maior parte das crianças e adolescentes não compreendem bem o que representa o feriado do dia 25 de Abril e como as coisas se passaram depois da Revolução, mas aos 18 anos já votam. Pouco se fala sobre as condições em que viviam a maioria das pessoas, que este era um país onde aprendia a ler e a escrever quem tinha condições especiais para isso, que a maioria das pessoas era analfabeta, que muitas crianças eram obrigadas a trabalhar para ajudar a sustentar a família, que pediam pão de porta em porta, que andavam descalços.

Há um grande desconhecimento da nossa História, sobretudo da mais recente?

Não conhecer a nossa História é não saber de onde vimos, não compreender o lugar onde nascemos, como viveram os nossos pais, os nossos avós, as gerações que deram origem à nossa. Caímos na perigosa armadilha de criar todas as condições para que a nossa mais negra História se repita. Aprender a nossa História, procurá-la, confrontá-la, lembrar e estudar a nossa memória, a nossa cultura e as nossas tradições, ajuda-nos a compreender o porquê das nossas condições de vida de hoje, a forma como a nossa sociedade se organiza, os valores que sustentam o sistema pelo qual orientamos de certa forma as nossas vidas. A escola tem obrigação de contribuir para que esta história não caia no esquecimento e de nutrir o sentido crítico dos alunos em relação à nossa história e à nossa sociedade de hoje.

Mas perguntem às crianças por exemplo o que pensam da escola. A escola pode ser, e para muitos é, um calvário. Quando é assim, pensa-se que são as crianças que não estão integradas, que não respondem socialmente àquilo que lhes é exigido, que têm um problema, não se pensa que este sistema é infernal, que o problema está na escola. Não vivemos uma ditadura fascista, mas vivemos um outro regime que de outra forma, menos visível, pode ser ainda mais perigoso.

O sistema de ensino tem por base princípios profundamente errados, contrários a muitos dos valores que estão orgulhosamente escritos na Constituição e sobre os quais gostamos muito de ouvir e falar. Neste sistema de ensino não existe nem liberdade, nem igualdade, nem pensamento crítico. É um programa de anti criatividade, e por isso muitas vezes deprimente e estupidificante, muito pobre. Estão a formatar pequenos seres humanos, por via de outras tiranias, que são aparentemente menos duras, mas também muito mais subtis, muito mais difíceis de identificar. Os alunos deviam fazer greve. Mas alguém ouviu falar em crianças em greve?

As crianças são subjugadas ao poder que o Estado e os seus pais lhes impõem, e obrigamo-las a cumprir horários e condições que em consciência não suportaríamos. Os pais podem queixar-se, mas os filhos não. Os valores do fascismo ainda cá estão, o Salazar está vivo. Não fazemos pergunta, a maior parte das vezes agimos porque é assim, e o assim é sem porquê. Isto é muito perigoso, fica bem às rosas, serem assim e sem porquê, mas à forma como organizamos uma sociedade e nos relacionamos com outros, não. Por isso talvez se queira apagar a História e não falar muito sobre isso.

Mas este filme, que tem também origem nesta História, não conta nem metade disto, seria impossível e também não foi isso que procurei fazer, o cinema não pode fazer isso. Interessa-me este episódio da Reforma Agrária, mas muito mais do que isso, tudo o que envolveu esse movimento, aquela paisagem hoje, aquelas pessoas que viveram esses outros tempos naquele lugar, as crianças de hoje e o seu afastamento da natureza, são muitas outras as preocupações. Não sou historiadora, nem socióloga, se fosse escreveria talvez um livro ou recolhia testemunhos e organizava-as num documento. Procurei antes beber nesta paisagem, na história daquelas pessoas e daquele lugar, nestes mistérios, para construir um filme em que as crianças se encontrassem com um passado que para mim ainda está muito presente, numa passagem de testemunho. Agora são as crianças que têm as sementes na mão, mas é preciso saber primeiro quais são, escolher as boas e lançá-las e o seu futuro tem que estar também nas suas mãos, têm que estar preparadas para decidir as suas vidas.

Interessa-me também o véu alquímico e mágico que alguns dos mais velhos preservam com a natureza da paisagem, como relação vital, que também se está a perder. O que se encontrará no filme será já qualquer coisa da ordem do onírico, a experiência de uma trama destas narrativas que coincidirá muito bem com o que dizia Jacques Rivette, todos os filmes são como um sonho. O cinema fala, ou pode falar, uma outra linguagem e é essa outra língua que estou a experimentar.

O que é, para si, o cinema?

O cinema é para mim um instrumento analítico duplo, que pensa qualquer coisa, enquanto se pensa a si próprio, é uma forma de pensar e um exercício do olhar. É essa a preocupação de um realizador: o que é que convoca a nossa visão, como é que se olha para isto, como olho para esta pessoa, como olho para esta história, para estas problemáticas, como relaciono umas coisas com as outras, num espaço e num tempo. E num filme acontecem muitas coisas que não prevíamos, muitos milagres, muitas surpresas, porque estamos a trabalhar com pessoas, especialmente no meio da natureza, com matéria viva. Como é que nos relacionamos e trabalhos com isso.

É um a relação muito física, intuitiva, sensível com o trabalho. E o cinema muitas vezes rege-se por uma narrativa mais próxima dos contos, mas também pode experimentar outras gramáticas, outros modos de ver, criar outras narrativas, outras dimensões. É sobretudo um exercitar da visão sobre as coisas, sobre os problemas, através das riquíssimas ferramentas que o cinema nos oferece e que na melhor das hipóteses, a possibilidade de experimentar uma visão, de propor caminhos e outros olhares, terá também uma dimensão política, e isso acontece quando saímos do cinema diferentes do que quando tínhamos entrado.

Aqui talvez a paisagem, na sua completude, tenha quase a força vital de uma personagem principal, que fala por si mesma, assumindo várias configurações. Estando sujeita à ação humana e em infinita mutação, responde-nos. Estamos sempre num ponto de vista dialético com a paisagem. Esta narrativa funda-se também neste que para mim é um diálogo místico que encontro ali, naquele lugar e com aquelas pessoas, e que é fundador de uma religiosidade que transmuta os limites da fé para um plano ao mesmo tempo imanente, quer dizer, com os pés assentes na terra. Amém vos digo, diz muitas vezes Jesus nos Evangelhos e aprendi há pouco tempo que além de querer dizer, na verdade vos digo, ou assim seja, em hebraico quer dizer o que tem os pés assentes na pedra.

A pedra que é um porto seguro, que não se move, que nos sustenta e onde podemos assentar. Mas este Amém, é paradoxal e muito inquietante, porque é dito aquando das afirmações mais complexas, mais abstratas, mais poéticas, mais incompreensíveis pela razão, que só poderão ser compreendidas com o coração, como a anamnese ou a expressão do belo em Platão. É esta confiança e esta leitura do mundo, da natureza como força maior, que encontro nas pessoas do campo com quem tive a sorte de crescer.

Foi a partir deste idioma que organizei as suas histórias numa paisagem que muitas vezes nos aparece como uma grande palco de teatro onde todas essas narrativas participam. Não sei dizer se a língua que atravessa este filme compõe os episódios ou o coro, se essa tragédia se pode dividir, de onde vêm estes ecos, se das suas histórias pessoais e comuns, da História do Alentejo, da História do nosso país, das suas lendas e contos ou outras dimensões poéticas das suas vidas, se ressoam da paisagem ou dos seus habitantes. Mas há ali uma noção de comunidade com a natureza, se isto se pode dizer, que conta muito de uma experiência física e espiritual que algumas pessoas estabelecem com aquele lugar.

Hoje percebo que é uma sorte terem-me feito compreender, menos por palavras e mais por gestos e nesta relação com a natureza, a importância da chuva e do sol para uma árvore, para as nossas vidas. Saber da chegada da perdiz e distingui-la de um pato, ter visto as searas crescer e saber que é daquele rebento que se fará mais tarde o pão que comemos ou ter apanhado amoras das silvas no fim do Verão. É verdade que hoje, infelizmente, muitas crianças não sabem sequer onde nascem as maçãs. Mas pior do que isso, é o facto de uma maçã já nem ser bem uma maçã… Mesmo assim, é preciso saber o que é uma verdadeira maçã, como nasce e de onde vem, o que são estas outras maçãs que nos andam a oferecer como gato por lebre, e o que isto representa nas nossas vidas. Por isso também quis levar as crianças para o campo, para se encontrarem com a natureza, com uma paisagem silvestre da qual a nossa sociedade, e chamam a isto civilização, está cada vez mais alheada e deixá-las descobrir. Claro, que tudo isto, na minha imaginação, no cinema.

Para uma criança o campo é o seu lugar “natural”. Quero dizer que uma criança encontra imediatamente relação com uma árvore, com uma flor, com um fruto. Acredito que se deixarmos corromper esta relação com natureza, se crermos nessa autoridade que gostamos de emprestar à nossa imbecil ideia de superioridade, ao nos afastarmos dela, a nossa vida estará em perigo eminente. É preciso saber por onde caminhamos, onde pomos os pés.

Texto | Ana Luísa Delgado

Fotos | D.R.

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