Ópera de Gluck no São Carlos

Depois de Dialogues des Carmélites, o Teatro Nacional de São Carlos apresenta “Iphigénie en Tauride”, ópera de C.G. Gluck, a segunda nova produção que compõe a Temporada Lírica 2015-16.

O encenador James Darrah e o diretor musical David Peter Bates são os responsáveis por esta nova produção, uma tragédia em quatro atos que marca a primeira experiência do encenador (enquanto responsável máximo por uma produção) na Europa, depois de Darrah se ter afirmado nos EUA com obras de Cherubini e Händel.

A restante equipa artística – cenógrafa, desenhador de luz e figurinista – é igualmente norte-americana, em estreia em Portugal.

A direção musical é do britânico David Peter Bates, especialista em música barroca, reconhecido entre a crítica pelo trabalho que tem desenvolvido, em particular com o ensemble La Nuova Musica. Esta produção marca também a sua estreia em São Carlos.

Os episódios heróicos da Guerra de Tróia seduziram muito especialmente os inúmeros defensores do Neoclassicismo do século XVII. A ópera não foi exeção: também Jomelli, Campra, Tratetta, Piccini e Gluck se inspiraram no drama de Ifigénia, a infeliz filha de Agamémnon aprisionada em Táuris.

Porém, só a ópera de Gluck (1714-1787) permanece no repertório lírico. Estreada com sucesso em Paris em 1779, Iphigénie en Tauride é a penúltima das 5 óperas que o compositor escreveu em Paris, cidade onde viveu a partir de 1773.

Inspirada na tragédia de Eurípides com libreto de Nicolas-François Guillard, a aparente simplicidade da ópera de Gluck ainda hoje nos comove. Não esqueçamos contudo que, à época, ela desencadeou tempestades entre os opositores do compositor que discordavam das reformas músico-dramáticas que Gluck iniciara com o Orpheus ed Euridice, em 1762.

“Iphigénie en Tauride” estreou-se Teatro Nacional de São Carlos em 1955, voltou a ser cantada em 1961 (com Monserrat Caballé na protagonista), e regressa esta temporada numa encenação de James Darrah. A ópera constitui para Christoph Gluck (1714-87) o apogeu de uma carreira de quase quarenta anos como compositor de música dramática.

Neste trabalho, o drama e a música são completamente inseparáveis, pois são precisamente os conflitos e tensões do drama que determinam as opções musicais tomadas pelo compositor na sua conceptualização musical. O drama é o centro de tudo.

Absolutamente crucial é a instrumentação – os recursos e a sua utilização, em particular o uso das cordas, longe de convencional  – apresentando uma variedade constante de texturas, motivos melódicos e rítmicos. Especialmente marcante é o uso de notas repetidas, quer trémulos, quer outras figuras reiteradas quase obcecadamente, e passagens de escalas – sempre para efeitos dramáticos.

Toda a música desta ópera, aliás, contribui para um único objetivo – o de reforçar o seu drama.

Iphigénie en Tauride 2

Encenador, designer e artista visual, James Darrah desenvolve o seu trabalho a partir de Los Angeles, em várias áreas, o que rapidamente lhe conferiu o reconhecimento como “a mais recente descoberta…um jovem e talentoso encenador norte-americano” (Chicago Tribune), que “aporta elementos trágicos reais” (New York Times) em produções que se tornam “experiências de uma vida” (Opera News).

A sua abordagem a projetos pouco convencionais, assente numa lógica de equipa, levou à criação de um coletivo interdisciplinar de artistas, denominado Chormatic. Esta temporada, no seio deste projeto, que assegura todas as etapas, do design à produção, já realizou diversos eventos e produções de ópera em grande escala, incluindo uma instalação vídeo com a Filarmónica de Los Angeles e o compositor John Adams. Iphigénie en Tauride, em São Carlos, assinala a sua estreia na Europa, com projetos de em nome próprio

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *