Simulação aumenta produtividade

O aumento da produtividade, a melhoria de eficiência dos processos e com isso a poupanças de recursos. São estas as vantagens que António Carvalho Brito, docente da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, vê na técnica da simulação, ainda pouco divulgada juntos das empresas e dos serviços públicos. Por isso foi criada a Associação Portuguesa e Brasileira de Simulação (APBS).

Como surgiu a ideia de criar esta associação?

A ideia surgiu em conversa com colegas de várias universidades no sentido de promover uma técnica que se chama simulação, técnica essa que usa o computador para criar modelos de sistemas reais de forma a serem avaliadas e estudadas as diferentes alternativas. Chegámos à conclusão que era útil divulgar mais esta técnica e aproximar os conhecimentos que existem neste momento nas universidades, tanto em Portugal como no Brasil, de forma a haver transferência de know-how das universidades para as empresas.

Como é que funciona esse processo?

A ideia é quase como criar uma imitação do funcionamento da realidade de forma a que ela possa depois ser analisada com o recurso a um computador. Imagine a receção de um hospital, com utentes que estão a chegar à receção. Pode-se modelar essa receção para avaliar em função do número de utentes estão a chegar, quantos profissionais serão necessários, etc. Esse modelo pode ser um modelo matemático ou ter uma parte computacional.

E nas empresas?

Nas empresas pode ser aplicado a várias áreas, desde a definição de um layout mais apropriado aos objetivos da empresa ou também aplicado na produção, em face de um conjunto de encomendas, saber através do modelo da simulação quantos recursos vão necessitar, saber quando é que as encomendas estão prontas para serem entregues e avaliar as diferentes alternativas de produção.

Isso num quadro empresarial em que as decisões de gestão são atualmente tomadas, muitas vezes, de forma intuitiva por parte do empresário.

Exatamente. Podemos considerar que a simulação pode ser utilizada como um sistema de suporte à decisão. Também na parte de gestão de processos de negócio esses podem ser simulados usando uma simulação de processos de negócio de forma a avaliar se é a melhor forma de fazer as coisas ou se há outras maneiras que seriam mais eficientes, poupando recursos ou executando as atividades em menor tempo.

Como é que em Portugal as empresas olham para a simulação?

Nos Estados Unidos e na Europa as empresas recorrem mais a esta técnica. Em Portugal ainda há algum desconhecimento e algum receio por parte dos empresários que consideram que pode ser uma técnica um bocado complexa e dispendiosa e daí afaste as empresas da sua utilização.

Como é que a APBS espera chegar às empresas?

Um dos objetivos da associação é usar a formação e iniciativas de divulgação como conferências, workshops, e a realização de projetos com as empresas que permitam que mais facilmente recorram a esta técnica e que ajude as empresas a resolver os problemas do dia a dia.

Por isso é importante ter as empresas cá dentro?

Uma das principais razões de ser da associação é envolver as empresas. Se fossem só os académicos, eles acabam por interagir uns com os outros, por exemplo em conferências. Mas trazer as empresas para o meio académico e o meio académico para junto das empresas é um dos principais objetivos da associação.

E porquê na Faculdade de Engenharia do Porto?

Isto foi uma iniciativa de várias pessoas e coube-me a mim essa tarefa juntamente com o professor Álvaro Assis Lopes, da Universidade Lusíada de Lisboa. Os dois iniciámos esse processo contando com o apoio de outros colegas da Universidade do Minho, de Aveiro, de Coimbra, do ISCTE, do Instituto Superior Técnico, Academia Militar, Escola Naval, Força Aérea, de outras universidade portuguesas e também algumas brasileiras.

Porquê universidades brasileiras?

Achámos que o fator língua era importante. Se fosse uma iniciativa internacional mais abrangente teríamos que ir para uma língua que não o português, eventualmente o inglês, e achamos que a dimensão do mercado português podia não ser suficiente para que a associação tivesse uma dimensão razoável. Considerámos que englobar pelo menos o Brasil seria importante porque o mercado empresarial e universitário brasileiro tem uma dimensão superior à nossa. Assim, por escritura pública, criámos a Associação Portuguesa e Brasileira de Simulação (APBS).

O trabalho começa agora.

Há um longo caminho a percorrer. Já há algumas empresas que recorrem a esta técnica mas a ideia é divulgar e conseguir que a adesão das empresas seja muito maior.

A técnica da simulação envolve algum investimento pesado por parte das empresas?

É essencialmente um investimento em equipamento computacional. Mas se se mostrar às empresas que um modelo de simulação pode conduzir a melhorias significativas, ao aumento da produtividade, à melhoria de eficiência dos processos e com isso a poupanças, eu julgo que as empresas serão sensíveis a esse argumento.

Em termos concretos como é que funciona a simulação?

É muito difícil uma empresa olhar para os seus processos, isso exige algum distanciamento. Portanto criar um modelo permite um distanciamento da realidade e possibilita estudar e analisar o modelo avaliando se o número de recursos, de pessoas e de máquinas é ajustado. Ou, eventualmente, se poderemos fazer o mesmo com menos recursos. Nós não podemos parar uma fábrica, mudar as máquinas de sítio para saber se isso conduz a uma melhor solução. No modelo, usando esta técnica, podemos fazer isso rapidamente e ter respostas sobre a qualidade dessas alternativas. 

A simulação pode ser aplicada noutros setores, designadamente ao nível dos serviços públicos?

Sim, pode ser aplicada na indústria mas também nos serviços e em particular na área da saúde, por exemplo nas urgências, no dimensionamento dos recursos ou até do próprio INEM. Fala-se muito do número de recursos necessários para dar apoio aos utentes, a simulação pode ajudar a encontrar soluções através da construção de modelos específicos de uma urgência, de uma enfermaria, permitindo obter resposta de quantos profissionais, quantas camas ou o número de equipamentos que seriam necessários para atender uma determinada população. 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *