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“A criatividade de hoje vai ser o património e a tradição do futuro”

Texto Margarida Maneta | Fotografia Gonçalo Figueiredo

O presidente da Sociedade Operária de Instrução e Recreio (SOIR) Joaquim António de Aguiar, Duarte Guerreiro, acredita não ter de existir um “versus” entre inovação cultural e tradições. Defende, até, que o presente é fruto do “casamento entre a herança que foi deixada pelo passado coletivo e a criatividade que se lhe foi incluindo”. Caso contrário, “ainda estaríamos a lascar pedra numa gruta”, ironiza. Quer com isto dizer, no fundo, que “se o presente fosse eterno, nunca teríamos futuro”. 

No entender de Duarte Guerreiro, é a própria condição humana que “obriga a que seja possível esta coexistência entre criação artística e a preservação das tradições”. Sobrando desta última o que nos chega pela mão da primeira. E é a partir desta lógica que nasce aquilo a que Carlos Fortuna, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, chamou de a “conservação inovadora”: em que as tradições “não deixam de existir, elas são é novamente codificadas”. Por isso, “a criatividade de hoje vai ser o património e a tradição do futuro”. Não tendo, retomando a ideia inicial, de haver um “choque entre elas”, concluiu Duarte Guerreiro.

O presidente da (SOIR) Joaquim António de Aguiar falava na Casa-Museu Quinta da Esperança, em Cuba, na conferência “Artes de Rua no Desenvolvimento dos Territórios”, promovida pela associação cultural Setespinhas e com o apoio do Ministério da Cultura/Direção-Geral das Artes.

“A criatividade pode ajudar a preservar e conservar o património”, advertiu, por sua vez, Paulo Simões Rodrigues, professor na Universidade de Évora, numa sessão dedicada ao tema “Criatividade e inovação cultural versus repositório de património e tradições – A reinvenção possível”. Segundo o professor da Universidade de Évora, “quando usa o passado como modelo”, a criatividade, através de processos de “apropriação e assimilação, dá um passo atrás, para dar dois à frente”. Quer isto dizer, “parte de algo que já está feito”, dando à memória do passado “um outro contexto ou leitura”.

No que diz respeito, em específico, ao património imaterial, Paulo Simões Rodrigues explicou que a conservação deste, dada a sua natureza dinâmica, implica também “a transformação e a perda”. Há, ainda assim, “algo que se ganha” neste processo porque “o essencial” é reintegrado, acabando por se conservar e ganhar “continuidade a partir do que nasce novo”. Especialmente no que toca a patrimónios “como as paisagens ou as festas populares”, a criatividade revela-se “uma forma de conservar vestígios e memórias do passado”. 

Por isso, nesta lógica de “conservação criativa”, os patrimónios imateriais são “o uso do passado no presente”, fruto do “conjunto de todas as memórias e intervenções” neles registadas até hoje. 

No entanto, ocorrem, também, momentos em que a criação “rompe” com a preservação. “Não a utiliza como referência nem a assimila, propõe-se a criar algo totalmente novo”. Mas é, para o docente da Universidade de Évora, a “conservação criativa” a “melhor forma” de “manter vivos” patrimónios que, de outra forma, se perderiam.

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