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A forma mais exigente da criatividade corresponde à dimensão artística

Guilherme d’Oliveira Martins* texto

As dinâmicas de desenvolvimento dos territórios dependem absolutamente da valorização do elemento cultural. E, ao falar da valorização do elemento cultural, falo de três fatores: o primeiro é a educação, o segundo é a ciência e o terceiro é a criação cultural, as raízes e, simultaneamente, todos os aspetos ligados a uma noção dinâmica de património. Daí a importância da descentralização e da participação dos cidadãos. Só com estas podemos ter uma valorização efetiva do papel da cultura.

O património cultural não é algo do passado, não é algo que nós olhemos como um acontecimento distante e histórico. O património é uma realidade viva, dinâmica e que obriga permanentemente à compreensão de fatores como, naturalmente, a memória que recebemos dos nossos antepassados, podendo essa memória ser física, material (como os monumentos, as referências arqueológicas, etc.) ou imaterial (refiro-me às tradições, a aspetos tão importantes quanto os hábitos das populações, das histórias que se contam, da gastronomia que se faz). A recordação, afinal, daquilo que são raízes que recebemos. 

Mas, se os patrimónios materiais e imateriais estão em primeiro lugar nesta referência, temos igualmente a nossa relação com a natureza, com o próprio território, com a paisagem. São elementos absolutamente cruciais para sabermos onde estamos e compreendermos a importância desse lugar. Por outro lado, além do património material e imaterial, da natureza e da paisagem, temos as referências tecnológicas, hoje tão importantes: o património digital, a comunicação e informação através dos novos meios e, simultaneamente, também a criação contemporânea. 

E entremos então nas artes de rua, uma tradição antiga e que parte da valorização do lugar de encontro – o rossio, o largo, a ágora grega. São lugares fundamentais de encontro que se relacionam intimamente com essa noção de artes de rua. E às artes de rua estão associadas três ideias fundamentais: a ideia de partilha, a de troca e a de festa. 

É indispensável percebermos que no lugar onde vivemos, no lugar que encontramos, há raízes comuns que nós não podemos deixar de considerar mas, simultaneamente, há uma permanente troca entre eu e os outros – a compreensão do respeito mútuo, da compreensão mútua, de sermos capazes de nos pormos no lugar do outro. Esta ideia de partilha é, pois, uma ideia fundamental quando falamos do valor das artes de rua. Depois a ideia de troca: cada um tem o seu próprio lugar, o seu próprio contributo. E, finalmente, a própria ideia de festa no mais fundo sentido: é a manifestação da vida, da alegria de viver e, simultaneamente, do empenhamento nessa existência. E nas artes de rua temos, portanto, tudo: a dança, a música, o teatro, o circo, a feira e, simultaneamente, temos tradições muito antigas que vão do cantar à desgarrada aos saltimbancos, aos robertos, às marionetas. Ou seja, é todo um conjunto muito vasto de iniciativas que nos obrigam a entender a cultura como participação, como mobilização das pessoas, como fator de entendimento de todos aqueles que constituem a comunidade.

Falei-vos, de partilha, de troca, de festa e estes três entendimentos levam-nos exatamente à importância da noção de comunidade que é, no fundo, a pessoa em conjunto. Os alemães usam a expressão gewöhnliche persone, que significa, exatamente, pessoa em comum. 

Se nos lembrarmos da nossa própria cultura e da nossa própria cultura popular, vemos que os cantares e, simultaneamente, as narrativas transmitidas de geração em geração, são elementos que só podem ser compreendidos e entendidos a partir desta noção dinâmica de património como realidade viva e deste lugar de encontro que significa, obviamente, algo de fundamental para que a descentralização e o poder local tenha, de facto, importância, significado e valor.

Portanto, as artes de rua estão intimamente ligadas à rica noção de comunidade. E essa noção de comunidade tem, quando falamos de cultura, um significado particular: património. A noção de património leva-nos à própria etimologia da palavra: patrimonium, em que monium significa um serviço, o empenhamento, o trabalho, a mobilização e patres são os nossos pais, aqueles que nos antecederam, que correspondem às gerações que estão antes de nós.

Ora, portanto, a ideia da arte de rua, a ideia do lugar de encontro – o rossio, o passeio público, a ágora – é, no fundo, a percepção mais funda da própria noção de cidadania. Com os nossos jovens, nas escolas, empenhamo-nos muito e positivamente em dizer que a cidadania ativa é um objetivo que visamos atingir. Cidadania ativa porque todos aqueles que constituem a comunidade escolar fazem, no fundo, parte daquilo que é a valorização desse elemento dinâmico e prospetivo. É a diferença para uma noção de património retrospetiva, que se revela insatisfatória porque estamos a olhar para trás e o caminho da sociedade faz-se andando para diante. E esse andar para diante implica compreender de onde vimos, das raízes e a força dessas raízes, mas, simultaneamente, entender que cuidando dessas raízes nós asseguramos que damos resposta, ou seja, garantimos que a cidadania ativa é livre e responsável. 

Vêem, portanto, como a partilha, a troca, a festa, a ideia de comunidade, as artes, a forma de comunicarmos através das artes – e dir-me-ão, podemos comunicar de maneiras diversas – mas já repararam que a forma mais exigente da criatividade é aquela que corresponde à própria dimensão artística? Veja-se o desenvolvimento de uma criança: a criança começa, em primeiro lugar, por desenvolver os seus sentidos. Uma criança antes de nascer já reage a estímulos externos de audição, designadamente, à música. 

Um dia questionada sobre o que é que é indispensável numa escola, Sophia de Mello Breyner respondeu: música, poesia e ginástica. O jornalista ficou absolutamente surpreendido e disse: “mas, senhora dona Sofia, diga-me, onde é que está, por exemplo, a matemática?”. Sophia olhou para ele, de uma forma um pouco ríspida, e disse-lhe: “Acha que é possível distinguir uma redondilha sem ter referências ao elemento quantitativo, ao um número, à matemática? Acha que é possível ler uma pauta de música ou desenvolver um trecho musical sem a referência à ideia de número? À ideia de ritmo? Naturalmente que não”. O jornalista reconheceu sim, afinal na música, na poesia, na nossa relação e compreensão com o corpo está tudo aquilo que é essencial à vida e à cultura. 

Devo dizer-vos que a palavra cultura é uma palavra relativamente recente da nossa civilização. Encontramo-la sobretudo nos nossos escritores, e nos escritores europeus, a partir do século XVI. Antes, a palavra cultura era referida sobretudo ao campo, afinal tem a ver com cultivar, com lançar a semente à terra e colher aquilo que a semente nos dá. Então o que é que os antigos, os romanos – Cícero, por exemplo – usavam para exprimir a ideia de cultura como nós a assumimos? Utilizavam a palavra humanitas, que quer dizer, hoje, a humanidade, a qualidade de se ser humano, de sermos pessoas, de sermos integrantes da comunidade.  

Os gregos usavam uma palavra que significa a compreensão exata da ideia de aprendizagem, de aprender como um valor fundamental que fazemos uns com os outros. E vejam como as artes de rua são uma forma de nós aprendermos, criando uns com os outros. Criando essa ideia de comunidade, de partilha, de festa. Como é que se transmitiu a Ilíada ou a Odisseia? Oralmente e, só em determinado momento, é Homero a referência, as passamos à escrita e podemos, de algum modo, estabilizar uma tradição que vai sempre mudando e que se vai sempre acrescentando.

A questão das artes de rua no desenvolvimento dos territórios é um elemento crucial para compreendermos o património cultural e, simultaneamente, para compreendermos a ideia de comunidade, centrada na cidadania ativa, participação e envolvimento dos cidadãos, bem como na possibilidade de cooperação criadora entre estes. 

A distinção entre o desenvolvimento e o atraso está justamente na capacidade de aprendermos com a experiência, uns com os outros – e aqui está a essência da cultura. A essência da cultura é esta dinâmica em que nós recebemos e compreendemos as raízes e as transmitimos para o futuro. Se repararem bem, uma sociedade não é desenvolvida apenas pelos meios materiais que tem. A sociedade é desenvolvida compreendendo que o que tem mais valor é o que não tem preço. Eis porque quando falamos de desenvolvimento temos que falar em primeiro lugar da criação cultural, da capacidade de recebermos aquilo que vem das raízes e de transmitirmos enriquecida essa herança.

* Administrador executivo da Fundação Calouste Calouste Gulbenkian. Texto da intervenção proferida na conferências “As Artes de Rua no Desenvolvimento dos Territórios”, promovida pela associação Setespinhas e pela ALD Produções (proprietária da SWPortugal) e co-financiada pela Direção Geral das Artes

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