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Destruição de ‘habitats’ ameaça diversas espécies de aves

Texto Luís Godinho

Ave migratória típica do montado alentejano, o abelharuco alimenta-se de insetos, principalmente, de abelhas (daí o seu nome) e de vespas. Vê-los é cada vez mais raro. Entre 2011 e 2018 a população desta espécie reduziu-se em 65 por cento, de acordo com uma estimativa da Sociedade Portuguesa para o Estudos das Aves (SPEA).  

Igualmente preocupante é a situação de outras 13 espécies de aves comuns associadas aos habitats agrícolas e que se encontram em declínio acentuado, a começar pela andorinha-das-chaminés e pela andorinha-dos-beirais, cuja chegada e partida dos montes alentejanos indicia, respetivamente, o início da primavera e a chegada do outono. São espécies cada vez mais raras, pois o número de exemplares recenseados baixou para cerca de metade durante o mesmo período.

Situação idêntica ocorre, por exemplo, com o pintassilgo (- 43 por cento), com o picanço-real (- 54 por cento), com o peneireiro (- 17 por cento) ou com o pardal-comum (- 29 por cento). O número de cegonhas-brancas é também significativamente menor (- 44 por cento), tal como sucede com o carraceiro (- 23 por cento) ou com o milhafre-preto (- 6 por cento), uma ave de rapina que embora não se encontrando em risco de extinção é muito sensível a fatores como a poluição das águas ou o uso de pesticidas. 

A perda e a degradação dos habitats, “nomeadamente, a transformação do mosaico agrícola tradicional em monoculturas de grande dimensão, assim como o uso de fitofármacos em grande escala”, são explicações apontadas para o declínio destas espécies, em particular das insetívoras, e constituem um “alerta para eventuais mudanças que estejam a ocorrer no meio agrícola com impacto para a biodiversidade”, assinala a SPEA.

“Sabemos as causas da maioria destes declínios. Se não agirmos já para as travar estamos a colocar em risco a natureza e a qualidade de vida dos nossos filhos e netos”, diz Domingos Leitão, diretor executivo desta associação ambientalista, defendendo a necessidade de “pensar para lá do lucro imediato”. “Para salvar o património natural dos nossos campos, Portugal tem que investir muito mais dinheiro da Política Agrícola Comum na gestão adequada dos sistemas agrícolas extensivos, como os mosaicos de cereal e pousio e os olivais tradicionais, que produzem menos mas contribuem para a conservação da biodiversidade, dos solos e da água”, acrescenta.

Ainda de acordo com Domingos Leitão, Portugal “deve deixar de promover o regadio e a agricultura intensiva, abster-se de autorizar projetos imobiliários e turísticos na linha de costa, acabar com a sobre-exploração dos recursos pesqueiros e proteger as reservas e parques naturais do impacto causado por aeroportos, minas e outros projetos destrutivos”.

O relatório elaborado pela SPEA mostra que a redução do número de exemplares das espécies mais comuns não é caso isolado: “Os dados recolhidos em vários programas de monitorização convergem na conclusão de que, como consequência da intensificação da agricultura, com o investimento no regadio intensivo, nas estufas e nos agroquímicos, as aves de zonas agrícolas estão em declínio”.

Considerada como uma espécie emblemática das planícies alentejanas, o sisão é também uma das aves estepárias mais “icónicas e ameaçadas” da Europa, tendo a sua população diminuído cerca de 49 por cento desde o início do século. 

Na verdade, enquanto o primeiro censo nacional do sisão, coordenado entre 2003 e 2006 pelo Instituto de Conservação da Natureza e da Floresta e pela SPEA, quantificou a existência de 17 419 machos reprodutores em todo o território de Portugal continental, atualmente esse número não irá além dos 8900. Sendo um decréscimo populacional muito significativo nas áreas designadas para a proteção da espécie (de 6 695 para 5 008 machos), é ainda mais substancial fora dessas áreas, com uma quebra de 64 por cento (de 10 724 para 3 892 machos), tendência registada igualmente em todo o sudoeste europeu, o que deverá levar ao agravamento do estatuto de conservação desta espécie, atualmente considerada vulnerável tanto em Portugal como em Espanha.

De acordo com a SPEA, em causa está uma “alteração significativa no uso dos solos” no Alentejo, com a conversão de vastas áreas de sequeiro em pastagens permanentes, olivais intensivos, vinhas e outras culturas. “Esta intensificação agrícola não se resume à perda de habitat, pois a sua qualidade também tem vindo a degradar-se, com maiores densidades de gado nas pastagens e o corte de vegetação (fenos) a ocorrer cada vez mais cedo coincidindo com a fase de ovos ou crias nos ninhos. Por outro lado, o uso de fitofármacos e as extensas áreas de monoculturas não promovem a ocorrência de insetos, rebentos e flores de que as crias necessitam para se alimentar”, sustenta a associação ambientalista. As colisões com linhas elétricas e a caça furtiva, sobretudo, fora das áreas designadas para a proteção da espécie, são outras causas que justificam uma mortalidade elevada. 

Os dados recolhidos pela SPEA permitem concluir que em Castro Verde, onde se situa a principal área de proteção da espécie, a redução do número de machos foi das mais pequenas do País, tendo passado de 3390 para 3090 (- 8,8 por cento), aqui se concentrando mais de um terço dos exemplares recenseados. Em áreas como a Zona de Proteção Especial de Mourão, Moura e Barrancos a espécie registou uma regressão de 77,3 por cento, passando de 828 para 188 machos, precisamente o contrário ao verificado no rio Guadiana (+ 73,9 por cento).

ROLA-BRAVA EM RISCO

A população de rola-brava, uma das mais emblemáticas espécies cinegéticas, que já em 2011 se encontrava ameaçada, regista agora um “declínio populacional acentuado”, na ordem dos 80 por cento, comparativamente com 2011. Trata-se de uma espécie que era abundante em Portugal no início dos anos 80 do século passado, altura a partir da qual começou a evidenciar decréscimos populacionais significativos, à semelhança do que sucede em Espanha e noutros países europeus.

“Diferentes fatores poderão estar a afetar esta espécie migradora nos seus locais de invernada, como a destruição dos habitats e a intensificação agrícola, mas também no território nacional, como a degradação dos habitats de nidificação/alimentação e a caça”, sublinha a SPEA. Os problemas de conservação desta espécie levaram o Ministério da Agricultura a limitar a quatro dias a caça na época venatória deste ano, embora os caçadores duvidem da eficácia desta medida. Segundo Jacinto Amaro, presidente da Federação Nacional de Caça, uma vez que a rola-brava é uma espécie migratória, uma decisão envolvendo apenas Portugal “poucos resultados” terá, devendo ser acompanhada de restrições idênticas pelo menos em Espanha e nos restantes países europeus da bacia mediterrânica.

MILHAFRES A SUL

Dos 696 milhafres-reais contados em Portugal pela SPEA, 504 concentram-se no distrito de Beja. Trata-se de uma das aves de presa mais ameaçadas do País, com uma população reprodutora com o estatuto de “criticamente em perigo”. O número de exemplares no distrito de Beja tem vindo a diminuir (passou de 809 em 2017 para 504 em 2019), embora a quebra seja muito menos acentuada do que noutras regiões – em Évora, por exemplo, foram contabilizados 983 exemplares em 2017 e apenas 24 no ano passado. 

A SPEA reconhece que a redução populacional pode ser menor do que o indiciado por estes resultados uma vez que o “esforço de amostragem não foi comparável ao dos anos anteriores”.

Contudo, os dados recolhidos na Estremadura espanhola demonstram a existência de um “declínio evidente”. Entre as maiores ameaças à espécie destacam-se o envenenamento, a perseguição direta, a perda de habitat e a eletrocussão. “Neste momento, é essencial promover a participação cívica nos censos de milhafre-real e melhorar a cobertura do censo, de forma a garantir a qualidade dos dados e permitir a comparação anual dos efetivos e o cálculo de tendências”, conclui a associação ambientalista.

POPULAÇÃO DE GROUS AUMENTOU

Aves invernantes em Portugal (chegam geralmente no início do outono e ausentam-se nas duas primeiras semanas de março), com uma distribuição atual quase circunscrita às planícies e peneplanícies do interior alentejano, onde mostram uma relação forte com os montados pouco densos, explorados numa lógica extensiva de uso múltiplo, os grous constituem uma das espécies que, apesar das ameaças que enfrentam, têm conseguido resistir ao declínio populacional. Em 2018, Carlos Miguel Cruz, coordenador nacional das contagens de grous pela SPEA, dizia nunca ter visto tantos exemplares como os 12 672 registados nesse inverno, marcado pela seca: “É um recorde desde meados dos anos 1980, altura em que se registavam 2 200 grous”. Em 2019, o número de observações manteve-se elevado: 11 596. 

“Concentram-se junto a planos ou cursos de água de maior tranquilidade para pernoitar (dormitórios), alimentando-se durante o dia na zona envolvente. Os núcleos tradicionais de invernia são caracterizados pela relação de persistência que estabelecem entre os dormitórios e as áreas de alimentação. Apesar da grande fidelidade das aves aos locais utilizados, o perímetro dos núcleos é dinâmico, podendo variar em função das condições climatéricas, da disponibilidade alimentar ou de eventuais fatores de perturbação ao longo da época de invernia”, explica Carlos Miguel Cruz.

A monitorização das populações confirma a manutenção de cinco núcleos principais: Campo Maior, Évora, Mourão, Moura e Castro Verde, tendo ainda identificado mais duas áreas, uma nas proximidades de Olivença, outra junto a Alvito.  

“Continuam a registar-se várias ameaças sobre esta espécie, a mais importante das quais se prende com a brusca diminuição de povoamentos de montados de azinho pouco densos, verifica-se ainda um aumento da intensificação agrícola sobretudo na área beneficiada pelo perímetro de rega da albufeira de Alqueva, envenenamento acidental por produtos químicos utilizados na agricultura, colisão com linhas de transporte de energia, perseguição direta por caçadores e perturbação junto das áreas de dormida”, refere o relatório “Estado das Aves em Portugal 2019”, elaborado pela SPEA.

Entre as espécies em declínio populacional encontram-se a andorinha-dos-beirais e a andorinha-das-chaminés, aves identificadas no Alentejo com a chegada da Primavera e o início do Outono.

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