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Do determinismo existencial à caixa de Pandora. “A Anomalia”, de Hervé Le Tellier

Texto Francisco Alves

É já no fim do livro que Hervé Le Tellier lembra o mito grego de Pandora, a primeira mulher criada a mando de Zeus e enviada à Terra para se casar com Epimeteu. Consigo trazia uma caixa (que, aliás, não seria uma caixa mas uma jarro) com a recomendação de jamais a abrir. Como a curiosidade falou mais alto, Pandora abriu a caixa e dela sairam todos os males do mundo, como a doença, as guerras, a mentira ou o ódio, até aí desconhecidos da humanidade. “Só um mal é demasiado lento para se escapar, ou talvez obedeça à vontade de Zeus”, escreve Le Tellier. Dentro da caixa fica apenas a esperança, “o pior de todos os males” já que é ela “que nos impede de agir, é a esperança que prolonga a infelicidade dos homens” pois “contra todos os indícios, vai correr tudo bem”. E, no entanto, o que seria do mundo sem ela?

Prémio Goncourt 2020, “A Anomalia” [Editorial Presença, maio de 2021, tradução de Tânia Ganho] coloca-nos perante um desafio não propriamente original, porque já experimentado no cinema, mas escrito de uma forma sublime, algures entre o thriller e o romance literário: e se num determinado dia, depois de uma viagem de avião, todos os passageiros fossem confrontados com a existência de um outro “eu”, em (quase) tudo igual a si próprios? 

O livro leva-nos de encontro à reação de personagens como Blake, um pai de família e assassino a soldo, Joanna, uma advogada de topo apanhada nos seus erros, ou Victor Miesel, um apagado escritor e tradutor cujo seu outro “eu” se transforma em autor de culto, chorado por uma falsa viúva, numa narrativa onde se reflete sobre o determinismo, enquanto causalidade reducionista, da existência humana. “Como a religião fornece uma resposta doutrinal e falsa, a filosofia propõe-se oferecer, por sua vez, uma abstrata e errónea”, escreve o autor.

Pouco editado em Portugal – além de “A Anomalia” está apenas disponível “Nunca é Demais Falar de Amor” [Teodolito, 2014] – Hervé Le Tellier divide-se entre o jornalismo no Le Monde e a escrita, sendo autor de vários livros, que vão do romance ao conto, passando pela poesia e pelo teatro. É também presidente do Ouvroir de Littérature Potentielle (Oulipo), um grupo de experimentação literária criado em 1960.

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