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É preciso resistir à visão da cultura como mercadoria

Ana Paula Amendoeira* texto

O tema da arte contemporânea ligado à potenciação da herança cultural, da tradição e do património foi um assunto também ele muito importante no pós-guerra. A arte contemporânea, tal como nós hoje definimos ou conhecemos, nasce, justamente, num período de pós-guerra e da arte pós-moderna, muito aliado ao desenvolvimento tecnológico, a um princípio de globalização, a um fortalecimento do sistema capitalista com mutações. Este conjunto de fatores acaba por começar a mudar aquilo que é a relação dos artistas e potencia a criação de novos movimentos artísticos que, no fundo, questionam, mudam e, de certa forma, revolucionam a arte moderna e o movimento modernista. E isto traduz-se numa transformação da arte para uma linguagem simplificada, de proximidade com o quotidiano, com as pessoas, permitindo que esta entre no chamado consumo de massas. 

Conhecer estes contextos culturais é importante. De uma forma simplificada, podemos dizer que este movimento acabou por trazer uma certa fluidez e liquidez das coisas, baseando a arte mais nas ideias do que na forma. O que acaba por, também, criar a ideia, defendida por alguns teóricos, de que a arte é o que o artista diz que é arte – e este é um traço da arte contemporânea. A arte deixa praticamente de ter um cânone. Portanto, o rigor do desenho, da proporção, acaba por se diluir neste movimento da arte contemporânea. E é essa nova abordagem, essa nova visão da arte que, ao mesmo tempo que a aproxima das pessoas e a torna objeto de consumo de massas, esvazia certo conteúdo para o preencher com outro. 

E isto é importante, penso eu, para podermos tratar um bocadinho a questão que nos é colocada aqui hoje, numa dimensão que não é contraditória, nem questionadora, mas é diferente das apresentadas anteriormente. Em regiões de interior com as características da nossa, a cultura contemporânea pode, de facto, dar um contributo muito relevante na relação com a herança cultural. 

A herança cultural é muito vasta porque estamos a falar de tudo o que herdámos, mas eu iria especificar que um dos traços distintivos, que nos vão servir seguramente para o futuro, é o facto de sermos ainda um repositório de conhecimento precioso. Conhecimento este que nos vai servir para o futuro, apesar de nós tentarmos, insistentemente, ignorá-lo, muitas vezes porque as políticas de desenvolvimento, consumo, entretenimento e até mesmo várias práticas que são próprias dos nossos tempos e que nós sabemos muito bem identificar, provocam um apelo de visibilidade, modernidade e contemporaneidade que está sempre mais num mainstream daquilo que são várias modas. E essas modas são, no fundo, a espuma dos dias, mas muitas vezes uma cultura dominante tende a fazer crer às culturas menos visíveis que há uma espécie de hierarquias culturais e que há uma espécie de evolução linear do atraso para o desenvolvimento. Ora, não há. 

Não há uma evolução linear do atraso para o desenvolvimento, nem do mau para o bom, nem da selva para a civilização, e se precisássemos de provas, basta-nos o facto de Donald Trump poder governar um país como os Estados Unidos – o que nos demonstra, à exaustão, que as evoluções não são lineares. Os nossos percursos fazem-se, portanto, de avanços e de muitos recuos. 

A nossa condição de pessoas do interior, neste caso, do Alentejo, não é nem inferior nem superior a outras e, portanto, precisamos de perceber que detemos um contributo e um conhecimento com quem nos precedeu e ainda cá está. Ao sermos cada vez menos, é esse conhecimento que está de alguma maneira em risco porque as pessoas que o detêm estão a desaparecer e, ao contrário do que aconteceu historicamente, não há uma continuidade, justamente porque esse corte com alguma memória e conhecimento tradicional advém de uma espécie de provincianismo sobre aquilo que é moda ou que dá maior visibilidade. Esse corte acaba por dificultar a transmissão geracional, que sempre houve, e que permitiu que nós, de facto, ao mesmo tempo que inovávamos, tivéssemos um caldo de cultura misturada com aquilo que recebíamos. Hoje precisamos desesperadamente, do meu ponto de vista, de voltar a criar esse caldo de mistura sobre aquilo que é a criação, a inovação e a novidade, sendo que a arte aí tem muito a dar. 

E o projeto do Martim Sousa Tavares (também conferencista; ver nota final), a Orquestra Sem Fronteiras, é muito importante porque se há alguma forma de tocar no coração das pessoas de uma forma mais imediata é através da música. Fazê-lo com qualidade ilumina as comunidades, portanto, é um projeto luminoso porque permite levar a música clássica a ser interpretada ou reinterpretada em sítios mais recônditos, onde, eventualmente, as pessoas nunca tiveram contacto ou têm pouco contacto com ela. 

Essa generosidade de partilha tem claro um bem em si mesmo, que é absoluto, que é o da fruição. E esse não precisa de mais razões: o ser humano poder usufruir, fruir, deleitar-se com uma manifestação artística é da natureza humana e, portanto, contribui para a sua evolução e é um fim em si mesmo. Não há um fim económico associado, só o bem-estar, próprio da fruição de uma forma de arte. E o equilíbrio, promovido pela participação de um ser humano ou de um grupo de seres humanos que leva a uma identificação simbólica como a forma de arte não tem preço, nem razão de ser. Ela é em si mesma absoluta, mas, além disso, havendo uma possibilidade e desejo de que a cultura e a arte contemporânea se relacionem naturalmente, como sempre aconteceu, mesmo quando elas eram de corte com o passado, de contato profícuo, penso que um dos contributos que a arte e a cultura contemporânea podem dar a uma região como a nossa é a de contribuírem para a atualização do conhecimento tradicional. 

Não no sentido dos objetos porque não penso que nos interesse “coisificar”. O que nos interessa é saber fazer, havendo uma coincidência em que a arte contemporânea se funde, no domínio das ideias, ao conhecimento que vem através de gerações e do saber fazer. Uma espécie de aliar a ideia à prática, algo que esquecemos completamente com a cultura globalizada, industrializada e mega tecnológica. Deixámos de ter uma relação do nosso corpo com o ambiente, com o mundo que nos rodeia, relacionamo-nos com o território e com o mundo à nossa volta através de próteses. A nossa relação direta do corpo material com aquilo que nos rodeia está a perder-se, de uma forma perigosa e assustadora. E nunca se perdeu até agora porque houve sempre uma transmissibilidade do saber e do conhecimento prático. 

Vejamos o exemplo da construção tradicional. Adaptada a cada região, os materiais tradicionais da terra, ao longo de séculos e milénios, permitiram uma adaptação àquilo que chamamos hoje de alterações climáticas. E, neste momento, em vez de se aproveitar e aprender o que é o conhecimento tradicional, de adaptá-lo e atualizá-lo à luz do que são os conhecimentos científicos que hoje temos e que permitem melhorar substancialmente as técnicas e os materiais tradicionais para o nosso bem-estar, não o estamos a fazer. Preferimos ignorar aquilo que é a herança cultural para continuarmos selvaticamente a construir em betão, a pôr alcatrão, quando sabemos que sobem brutalmente as temperaturas, a arrancar árvores.

Este é um exemplo, mas poderia dar muitos outros, em que a criação e a cultura contemporâneas aliadas verdadeiramente, e não numa espécie de vampirização, encenação ou de “macaquiamento” daquilo que é a cultura tradicional, em pé de igualdade, em que uma aproveita da outra, e vice-versa, é sobretudo o que deixámos de ter nestes territórios do interior, ao mesmo tempo que se alimenta uma desvalorização vergonhosa das pessoas velhas. É uma vergonha aquilo que se passa na nossa sociedade. Nós desvalorizamos as pessoas velhas, começando logo por lhes chamar idosos. As pessoas velhas são uma riqueza impressionante que temos, sobretudo, numa região como a nossa. 

Sempre houve contacto de gerações, em que as pessoas novas aprenderam com as pessoas velhas. E, agora, um dos espelhos aterradores que esta pandemia nos trouxe, foi o que aconteceu com as pessoas velhas. É uma vergonha de que nós nunca nos poderemos redimir e, portanto, pode parecer que não tem nada a ver o que eu estou a dizer, mas, do meu ponto de vista, está relacionado com o papel que a arte e a cultura contemporânea podem ter nestes territórios do interior ao relacionar-se com a herança cultural, mas, sobretudo, naquilo que podem fazer para o nosso futuro. 

E estas questões que estou a levantar – peço que não as interpretem como uma intervenção estagnada ou conservadora – não é virada para o passado, antes pelo contrário. É de uma preocupação visceral com o futuro e é uma espécie de medo de que esse futuro, neste momento e período em que estamos a viver e com tanto que temos que reconstruir e que repensar, não passe por uma valorização desta riqueza absolutamente incontornável que temos na nossa na nossa região, na cabeça das pessoas e no saber das pessoas.

Vivemos num mundo em que a mercadoria, e é espantoso que isto aconteça, é a experiência humana. Claro que quase tudo ou mesmo tudo, a não ser que nós tínhamos uma consciência crítica de tal maneira forte que não queiramos ir por aí, mas a onda gigante é de que tudo esteja sujeito a uma lógica mercantil de compra e venda. O tempo vai sempre mudando as coisas, e a única certeza que nós temos é que tudo muda e, portanto, essa é a nossa esperança. É de que nós vivemos neste tempo, mas ha de vir outro em que este modo de viver e operar vai ser posto em causa e vai mudar. Mas este é o nosso tempo: em que tudo é redutível a um preço e não a um valor. O valor das coisas ficou bastante lá para trás e o preço é o que está agora na ordem do dia. 

O que se ganha em dinheiro com o património é importante porque este se tornou uma mercadoria, mas é preciso que tenhamos muito claro que não pode ser o alfa e o ómega da cultura e do património. Parte-se do princípio de que o património é apenas um bem transacionável e, portanto, só é objeto de apoio e de investimento se for passível de trazer receitas. Vemos isso, por exemplo, nos indicadores dos projetos culturais em património: no anterior quadro comunitário de apoio era o número de camas que aquele projeto para recuperar um bem patrimonial iria vender em hotelaria. Não havia outros indicadores. E esta não era apenas uma regra nossa, estava espalhada por vários países neste quadro de financiamento europeu. Portanto, quando chegamos a este ponto e o admitimos, não havendo um clamor coletivo ou, pelo menos, substancial, é porque achamos que pode ser assim. 

Damos mais um passo e colocamos muitas mais pedras naquilo que referi, de não considerar o conhecimento que nos precede e que devia misturar-se com o nosso tempo numa lógica de continuidade. Isolamos como objetos aquilo a que chamamos património. Isolamos do seu contexto, do seu sentido, do seu valor, como uma mercadoria. Ao isolá-lo, o objeto deixa de ter antes, durante e depois. É apenas “coisificado” e, como tal, é transacionado. Não havendo outra dimensão de valor para aquele objeto, ele retém apenas o seu valor de mercadoria e é só assim que é considerado. É em função do rendimento que ele dá, é uma espécie de escravatura, e esta imagem é violenta, mas mutatis mutandis, é como o valor dos escravos. Eles eram pessoas, mas não o eram: estavam “coisificados”, reduzidos àquilo que era o seu valor único considerado que era um trabalho. Nós corremos o risco de fazer isso de uma forma absurda com a cultura e com o património se não arrepiarmos caminho. 

Não é fácil fazê-lo porque este tipo de visão e de conceção vem-nos sendo servido em doses homeopáticas. Nunca há um choque, nunca é uma coisa de repente, portanto, como em tudo na vida, vamo-nos habituando. E é por isso que a cultura é cada vez mais importante, à medida que este sistema e forma de ver as coisas avança e se torna hegemónica. É por isso que o Martim Sousa Tavares levar qualquer um dos nossos clássicos a um território inusitado, para aquilo que é um mainstream, pode fazer maravilhas com o facto de as pessoas poderem ser donas do seu pensamento. Do pensamento crítico, que eu acho ser o único pensamento que existe, que é livre e alimentado pela cultura, por aquilo que sabemos, aprendemos, refletimos e vemos. 

É a cultura que nos salva, não é mais nada. Neste momento e em todos os outros, mas neste em especial, em que temos cada vez mais a cultura como mercadoria e nada mais do que isso, sabemos que é preciso essa forma de resistência, no melhor sentido da palavra. Porque temos a certeza de que estamos do lado certo, apesar de estarmos em minoria por a cultura não ser considerada um eixo central nas políticas de desenvolvimento. 

Sabemos, no entanto, que um dia a vida das pessoas vai melhorar extraordinariamente e não apenas porque ganham mais dinheiro. A vida das pessoas pode melhorar extraordinariamente se as pessoas evoluírem como melhores seres humanos e, sobretudo, se tiverem uma espécie de livre arbítrio, que agora pensamos que temos muitas vezes não temos, para pensar livremente e dizer, retomando aquele poema extraordinário do Régio, que não vou por aí, ainda que todos vão. Isso é a cultura que nos traz: dizer não vou por aí, mesmo que todos vão. Não há mais nada que nos traga isso: não é o dinheiro, não é ter tudo aquilo que precisamos para a vida material.

* Diretora Regional de Cultura do Alentejo. Texto da intervenção proferida na conferências “As Artes de Rua no Desenvolvimento dos Territórios”, promovida pela associação Setespinhas e pela ALD Produções (proprietária da SWPortugal) e co-financiada pela Direção Geral das Artes. Título da responsabilidade da SW Portugal

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