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Escravos. A história dos africanos no Vale do Sado no século XVIII

Texto Júlia Serrão

Nos finais do século XIX, o linguista e arqueólogo José Leite de Vasconcelos dava conta da existência de “negros” no Vale do Sado. Ou “carapinhas” e “atravessadiços”, outras expressões por ele utilizadas, e que dizia serem usadas pelas pessoas da região para se referirem a esta população, de que se sabia quase nada até ao lançamento de “Os ‘Pretos’ do Sado’ – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana”. O livro da historiadora e investigadora Isabel Castro Henriques narra a história e a memória desta comunidade alentejana de origem africana, recorrendo a documentação e entrevistas no terreno.

“Ribeira do Sado/ Ó Sado, Sadeta/ Meus olhos não viram/ Tanta gente preta; Quem quiser ver moças/ Da cor do carvão/ Vá dar um passeio/ Até São Romão (…).” Ao visitarmos, hoje, a região do Vale do Sado, a segunda do país na cultura de arroz, já não nos cruzamos com moças negras como as do poema do “Cancioneiro Popular de Alcácer do Sal”. E os traços físicos dessa herança esbateram-se no tempo. “Verificam-se, às vezes, no cabelo. Há algumas feições, mas poucas. Estão muito diluídas”, comenta Isabel Castro Henriques, autora de “Os ‘Pretos do Sado’ – História e Memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana (Séculos XV-XX)”.

Em 2003, quando foi pedido à especialista em História de África uma investigação sobre a herança africana em Portugal, a “chamada” comunidade africana da zona do Vale do Sado desencadeou-lhe especial interesse. Tratando-se de um trabalho genérico, não aprofundou o tema, mas ficou “sempre a pensar na questão, que achava de extrema importância e interesse estudar”. Por isso, em 2019, exultou com o pedido da Secretaria de Estado da Cidadania e Igualdade para fazer um estudo sobre os descendentes dos africanos do Vale do Sado. Iniciou a pesquisa a partir de Leite Vasconcelos que, no final do século XIX, “começa a falar da população que encontra nessa zona”, a que chama “pretos do Sado” e “mulatos do Sado”. 

O título do livro, que surge entre aspas, “é retirado” desta “expressão banalizada” pelo linguista e arqueólogo que, no início do século XX, “retoma as expressões”, que dizia serem “usadas pelas populações locais”, e que incluíam ainda “carapinhas” e “atravessadiços”. “Remetendo para os aspetos físicos que caracterizam esta população e que, de certa forma, são utilizadas para a desvalorizar ao longo dos séculos”. A partir do século XVIII, a designação dominante é “mulatos”, na medida em que “já se tinham dissipado os marcadores mais africanos desta população, misturada com a branca”. 

ULTRAPASSAR O SILÊNCIO

A pouca informação sobre estes habitantes dificultava o desenvolvimento do projeto, mas era reveladora: “no quadro e no contexto ideológico e do preconceito português, não tinham valor quase humano e, portanto, não eram considerados dignos de uma investigação do desenvolvimento do próprio conhecimento”. A investigadora, que introduziu a cátedra de História de África na faculdade enquanto professora, recorreu a uma bibliografia pluridisciplinar. Procurou, em particular na Biblioteca Nacional, tudo o que lhe permitisse “começar a enquadrar e definir o objetivo de estudo que era os ‘pretos do Sado’: saber quem eram; quando vieram; quando se instalaram; como viviam; como trabalhavam; que tipo de relações mantinham com as outras populações e com os proprietários, pois sabe-se que eram escravos até ao final da abolição da escravatura. E, com isso, ultrapassar o silêncio que existia em relação a eles”.  

Esclarece que Leite Vasconcelos dizia que se tinham instalado no Vale do Sado nos finais do século XVIII para trabalhar no arroz, numa operação feita pelo Marquês de Pombal. Mas a tradição oral afirmava que estavam lá desde finais do século XV – data que é dada como a mais provável. Nos arquivos da Torre do Tombo, Isabel Castro Henriques quis esclarecer o assunto recorrendo a documentação do final do século XV, XVI, XVII e XVIII. “Foi complicado, porque não há qualquer registo de ‘africano’ nesses arquivos”. Encontrou “alguma coisa”, pesquisando por designações de dimensão física da cor e social do estrato: “pretos”, “negros” e “escravos”. Situou-os no final do século XIX, “sabendo que vinham de Lagos, a cidade do Algarve que recebia mais escravos desde meados do século XV, sendo inseridos na região da ribeira do Sado”. 

Outra questão pertinente tinha que ver com o momento em que passam a ser homens livres, e considerando as indicações dos “que falavam um pouco sobre o assunto, e diziam que a população se tinha estabelecido na região na segunda metade do século XVIII para trabalhar no arroz”. Procurou também esse “contexto marcado pela abolição da escravatura, que só está a funcionar plenamente no século XIX, trabalhando sobre o arroz”. As duas “balizas cronológicas (séculos XV/XVI e XVIII) orientam do ponto de vista temporal o trabalho, que se organiza em três partes fundamentais”. 

INTEGRAÇÃO ATRAVÉS DO TRABALHO E DA RELIGIÃO

A primeira é sobre o enquadramento geográfico, histórico, a colonização e organização do espaço. “E aí surge a Ordem de Santiago que, desde o século XIII, tem um papel muito importante no povoamento e na organização do espaço”. Outra questão essencial era “a ordenação da propriedade latifundiária”, pois, apesar de Alcácer do Sal já ser um centro urbano importante, o espaço era essencialmente agrícola”. 

O segundo capítulo vai do século XV ao XVIII e trata particularmente dos africanos no Vale do Sado: “Uma presença”, resume a investigadora, “dispersa, silenciosa e anónima”. “Têm nomes católicos, europeus: é a Maria, o João, a Rosa. Perderam a sua identidade africana e são escravos. Vêm e integram-se como tal”, sendo que a integração é dispersa nas várias propriedades rurais da região, e nunca mais de doze indivíduos por cada uma. Viviam com outros trabalhadores brancos, não tendo um trabalho exclusivo: eram escravos domésticos e agrícolas, trabalhavam no comércio e nas trocas, na produção artesanal, de dia e de noite, “sendo desumanizados”. No entanto, “este trabalho foi essencial para a sua integração, que também se fazia através da religião”: já eram batizados. Os proprietários eram obrigados a dar-lhes uma formação religiosa e a batizá-los. As confrarias a que vão pertencer seriam também mecanismos importantes da integração na religião católica, “que lhes permitia ter uma participação ativa nas festas e atos religiosos. 

Relembra a investigadores que todos eles viviam com dificuldades, anónimos e silenciosos. “Não sabemos quem são, sabemos mais ou menos quais eram as propriedades rurais onde eles existiam, numa linha ao longo do rio Sado, que tem localidades particularmente importantes como São Romão, Rio de Moinhos, São Mamede e Santa Margarida do Sado. E trabalhavam também nos portos, na troca de mercadorias”. De qualquer forma, a partir do século XVII, a maior parte dos escravos que existia na região já aqui tinha nascido.

LIBERDADE CONDICIONADA

No campo dos alforriados, a maior parte continuava a trabalhar para os proprietários e para as respetivas famílias, pois tratava-se de alforrias condicionadas. A historiadora refere a existência de documentos “que lhe atribuem propriedades, terras ou moinhos e vinhas”, mas sublinha que, na verdade, “eram apenas rendeiros”. Esclarece: “Geralmente até ao século XVIII, a maior parte dessas propriedades pertenciam à Ordem de Santiago, que as arrendava a pessoas livres”. Também já aparecem com categorias um pouco mais elevadas, participando em funções administrativas. 

O último capítulo debruça-se sobre o surgimento e consolidação da comunidade alentejana de origem africana no Vale do Sado (séculos XVIII-XIX). Isabel Castro Henriques diz que a integração destes homens e mulheres vai prosseguir no século XVIII, mas sobretudo no princípio do século XIX, “em que já são homens livres, e trabalham na cultura do arroz”. Por outro lado, “aparecem concentrados”. A concentração na margem esquerda do rio Sado é explicada “através de múltiplas teorias, nenhuma provada com documentos suficientemente credíveis, e algumas derivam da tradição oral”, acrescenta.

À semelhança de Vasconcelos, alguns autores sustentam a tese de que a população negra teria sido levada pelo ministro do rei D. José [o Marquês de Pombal], vindos de outras zonas do país, para trabalhar no arroz, “sendo considerada forte e sólida para defrontar todas as doenças provocadas pelo trabalho ligado a esta cultura”. Outra, com base na tradição oral, dada por um historiador regional, alimentava que um barco com escravos teria atracado em Lisboa já depois de 1761, a data da abolição do comércio negreiro em Portugal. “Esses escravos teriam sido libertados e levados para esta região”. Por fim, dizia-se que “teriam vindo grupos de escravos do Algarve, fugidos depois da abolição da escravatura, instalando-se naquela zona onde encontravam já uma espécie de comunidade mestiça-negra”. Sublinha: “Todas permitem pensar que, efetivamente, essa comunidade existiu e fixou-se a partir do último quartel do século XVIII, de várias maneiras”.

POPULAÇÕES ALENTEJANAS

“Era uma comunidade maltratada pelas comunidades vizinhas, que se fechou naquela zona e ali se foi reproduzindo. O que permite aos estudiosos da genética pensar que se fica a dever a esta reprodução interna – embora também se misturassem com a população branca da região – o facto de ainda hoje existirem algumas características físicas da população negra nos descendentes”, diz a investigadora.

Nos arrozais, a população negra trabalha “ombro a ombro” com a branca local, em condições idênticas. “A cultura do arroz fornece o elemento chave de integração destas populações que, a pouco e pouco, se transformam em populações alentejanas, em populações portuguesas, que vão perdendo progressivamente as características culturais africanas”. Relembra que o processo já tinha começado durante os séculos XVII e XVIII, através da adesão ao catolicismo, só que a partir do século XIX, torna-se ainda mais intenso.

Isabel Castro Henriques dá conta da existência de relatos dos séculos XIX e XX sobre a dureza da vida dos trabalhadores do arroz, “sejam brancos, negros ou mestiços”. Aos últimos acrescia o facto de serem sujeitos a discriminação e preconceitos por parte de outras comunidades alentejanas brancas da região, “por serem pretos e descendentes de escravos”. Eles sentem essa discriminação, também marcada por “ações do Estado Novo” a partir dos anos 30 do século XX: eram levados para serem analisados e medidos. “Falei com pessoas que relatam o quanto essas atitudes de os tratarem como animais foi dura e humilhante. Isto criou na comunidade, já no século XX, um silenciamento da sua origem africana, que os remetia para uma situação sempre degradante e desvalorizante”.

Esta parte do trabalho foi feita com base em memórias que estão registadas e em entrevistas que fez no terreno, com várias pessoas de Alcácer do Sal a Rio de Moinhos, algumas descendentes dos “pretos” do Sado. Com 70 e mais anos de idade, contaram-lhe que quando eram pequenas, na família, ninguém falava no assunto. Uma das entrevistadas observava que “a mãe, às vezes, lhe dizia: ‘é do lado do teu pai que havia corvos’, e explicava que era, dos irmãos, a que não tinha traços. E, de facto, não tinha”, observa a investigadora, explicando que se deu conta que pouco ou nada sabiam sobre o seu passado. Era ela que lhe dizia que tinham vindo para a região nos finais do século XV. 

“Hoje não encontramos marcas de qualquer africanidade, na sua forma cultural, nestas populações. Eles querem-se do ponto de vista identitário como alentejanos, e são alentejanos. Agem como alentejanos, pensam como alentejanos”, conclui Isabel Castro Henriques, esclarecendo que há um único aspeto em que se pode encontrar um vestígio subtil nesse sentido, que é o chamado canto do Ladrão do Sado, identificado por Michel Giacometti, uma forma cantada de improviso típica dos arrozais de Alcácer do Sal, praticamente extinta, e também apelidada de Ladrão dos Pretos ou Ladrão de Palma.

É IMPORTANTE A COMUNIDADE CONHECER A SUA HISTÓRIA

Professora associada com agregação do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Isabel Castro Henriques vê o trabalho que acaba de publicar como um ponto de partida. “É sempre muito importante, quando não há nada ou há muito muito pouco. Obviamente que [o livro] vai buscar algumas informações a outros autores, mas acrescenta muito, através da minha própria investigação”, observa.

Por outro lado, é “muito importante” que a comunidade conheça a sua história do ponto de vista da história regional e nacional, e que aquilo que quiseram esconder, pelos motivos analisados, hoje possa ser motivo de orgulho. “Penso que, felizmente, o preconceito que eles sofreram durante séculos estará em vias de desaparecer. E, sobretudo, o que me parece mais importante é entendê-los no presente, tal como são: alentejanos, parte da nossa comunidade portuguesa, parte de nós”, conclui.

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