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“Estou sentimentalmente muito agarrado às memórias dos jornais”

Nasceu em Moura e passou os primeiros de vida na Amareleja, antes de se tornar num dos mais conhecidos jornalistas e escritores portugueses. Aos 85 anos, Mário Zambujal confessa não ter perdido o gerúndio na sua forma de falar e de escrever. Perfil de um homem que se confessa “sentimentalmente” agarrado aos jornais.

Texto Júlia Serrão

Na hora de os filhos nascerem, “por precaução”, a mulher do inspetor de moagem de toda a zona sul mudava-se da Amareleja para Moura, “onde havia assistência médica e mais recursos”. Tinha sido assim um ano antes quando nascera Francisco, o filho mais velho do casal. Cumpriu o mesmo ritual em março de 1936 para dar à luz o segundo, Mário Joaquim Marvão Gordilho Zambujal, que 85 anos depois, e apesar de ter partido muito cedo do Alentejo, observa ter “uma grande ternura pelas duas terras”.

Os primeiros quatro anos de vida do jornalista e escritor Mário Zambujal são passados na Amareleja, a determinada altura considerada uma das maiores aldeias do País. Seguem-se dois em Beja, antes de a família se mudar definitivamente para Faro, no Algarve, onde estuda e exerce duas profissões, antes de partir para outras paragens e se dedicar exclusivamente às notícias e aos romances.

“Vivíamos na rua dos Mercadores, perto da cadeia, que era qualquer coisa que me impressionava muito”, recorda do tempo passado na capital do Baixo Alentejo. “Depois, fui para o Algarve, mas levei o Alentejo comigo. A minha mãe era uma ótima cozinheira, que fazia muito bem a comida alentejana, desde as migas às sopas de cação, e o meu pai cantava muito bem”. Confessa ter tido uma infância “muito feliz em todos os lugares”, pois a família, “não sendo abastada vivia bem, e era muito unida”. Eram seis em casa, os pais e quatro filhos, dois rapazes e duas raparigas. Também nunca lhe faltaram amigos.

Quando a escola fechava nos quase três meses de verão, sempre que se proporcionava, Mário trocava o mar pela planície. Voltava à Amareleja para passar uma temporada. Até jogou “à bola no clube da terra”. Sempre teve “uma grande paixão” pelo futebol. As memórias do Alentejo estão muito ligadas a esse tempo de férias, “às brincadeiras com os meus primos e com os amigos que lá fiz para a vida, naquela altura, e ao carinho da minha avó Marcelina, que era uma pessoa espetacular”. 

Explica que não vive “verdadeiramente o Alentejo há quase 80 anos” e há três que nem sequer visita a região mas, curiosamente, mantém “o sotaque” alentejano, como ele próprio faz questão de frisar. A utilização do gerúndio é outra característica que o liga ao território.

Com o desaparecimento progressivo da família e dos amigos das ‘terras de origem’, já não tem praticamente ninguém conhecido na Amareleja ou em Moura, e as estadias por aquelas paragens foram ficando mais raras. A determinado momento também passou a fazer mais férias na terra da mulher, em Alcoutim, onde os sogros deixaram uma casa. Mas assegura, que “a relação afetiva com o Baixo Alentejo existe”.

No Algarve, Mário Zambujal começa por trabalhar num escritório, depois passa por um banco. Livra-se da tropa graças a um “problema pulmonar” que tinha tido na infância, provocado por horas de exposição à chuva e ao sol, descuidado em desafios de futebol. Nada de importância, mas que serviu para evitar o serviço militar.

O percurso que o havia de levar para o jornalismo começa “pelo azar” do correspondente do jornal “A Bola” na região ter adoecido, ficando impedido de sair de casa durante dois meses. “Pediram-me para o substituir”, diz, explicando que nessa altura já escrevia contos para o “Semanário” e para “Os Ridículos” – tendo publicado o seu primeiro conto no jornal satírico do Bairro Alto, aos 15 anos. Também já assinava crónicas no “Jornal do Algarve”.

“Aliás, foi por ter essa experiência que me pediram para fazer a substituição temporária”, observa. O correspondente ficou apto a voltar ao serviço, mas “A Bola” não quis abrir mão da escrita de Mário Zambujal e começou a dar-lhe mais trabalho do que ao antigo colaborador. Por fim, chegou o convite. “Começaram a insistir que viesse para a redação em Lisboa. Eu estava habituado a outras vidas, de Alentejo-Algarve, tinha um pouco de medo da mudança, mas lá acabei por vir. Foi há 60 anos, e cá estou.”

Tinha 25 quando entrou na redação do jornal desportivo “A Bola”, e sete anos mais tarde muda-se para o “Diário de Lisboa”, que acabou por deixar no ano seguinte, em 1968, para ir para o “Record”, então dirigido por Artur Agostinho.

Em 1970, entra para o diário matutino lisboeta “O Século”, onde se mantém até meados de 1975 como chefe de redação, altura em que assume a direção do “Mundo Desportivo”. Passou depois para o “Diário de Notícias”, onde também tem como função a chefia da redação. Da carreira jornalística, há ainda a destacar a passagem pelo “Sete”, um jornal de espetáculos de que foi primeiro diretor, a chefia da redação de “O Jornal” e as funções de diretor-interino do “Tal & Qual”.

A propósito deste saltitar entre títulos, numa entrevista ao jornal “Expresso”, em 2009, admitia cansar-se das rotinas. “Tenho um sentido de aproveitamento da vida. Isso leva-me a desejar conhecer muita coisa e estar em sítios diferentes. É bom começar de novo”. Mas é como o rosto do “Grande Encontro”, que passava na RTP em 1978, que se torna conhecido da maioria dos portugueses. O pedido para participar no programa desportivo também foi feito “com uma grande insistência”, e ele, que ainda estava no “Sete” acabou por aceitar, acumulando funções. 

Logo depois passa para os quadros da televisão pública e faz outro género de programas. Na radio, deixa o seu contributo como coautor dos textos do programa “Pão com Manteiga”, da Comercial, que, posteriormente, seriam reunidos em livro. Nunca exerce a profissão de jornalista na radio, apesar de gostar muito do meio. “A minha vida foi mais jornais, televisão e livros”.

À pergunta se prefere a imprensa escrita ou a televisão, inicialmente diz que não consegue escolher. Mas, acaba por reconhecer: “Estou sentimentalmente muito agarrado às memórias dos jornais, que para mim continuam a ser a preto e branco, e ao clima com que se vivia a sua feitura. Dá-me uma certa nostalgia desse tempo”.

Como jornalista, passou por muitas redações de título desportivos, generalistas e culturais. Como escritor, publicou uma longa série de obras de ficção e contos. Na célebre “Crónica dos Bons Malandros”, o seu primeiro livro, conta o dia a dia dos elementos de uma quadrilha invulgar que recusava o uso de armas e tinha um chefe com o apelido de pacifista [Pedro Justiceiro, interpretado no cinema por Nicolau Breyner]. Ficou sempre marcado por essa obra, lançada em 1980, que quatro anos depois seria adaptada por Fernando Lopes ao grande écran. O segundo livro, “Histórias do Fim do Mundo”, é um enredo que se passa numa velha rua da cidade de Lisboa, forçada a desaparecer por causa de planos urbanísticos, e inscreve-se como uma narrativa cheia de sensibilidade e humor, marcada por uma grande originalidade do seu autor.

O título mais recente foi para as livrarias em novembro do ano passado e reúne um conjunto de contos que já tinham sido publicados. “Rodopio” foi uma “ideia do editor”, comenta Mário Zambujal, confessando não gostar de rótulos: “O jornalismo é uma profissão e escritor não é… quero escrever livros que as pessoas apreciem.”

“MÁQUINA FANTÁSTICA”

O que mais inspira Mário Zambujal quando escreve ficção são as pessoas, “essa máquina fantástica inimitável que é o ser humano, absolutamente único, com todos os seus sentimentos contraditórios e com todas as suas paixões”, define. “Nos meus romances, o que eu retrato ou caricaturo – porque muitas vezes são caricaturas, personagens com alguma comicidade que são transportadas por histórias mais ou menos difíceis de acontecer, mas não impossíveis – é inspirado nesse ser que não é superável por nenhuma máquina do mundo. Não há nada que se possa comparar a esta coisa maravilhosa, ao mesmo tempo fascinante e amarga, que é o comportamento dos seres humanos”.

Neste momento não está a escrever nenhum romance. Não se sente inspirado? “Tenho estado muito preguiçoso, porque está muito calor. Vou ver o que é que acontece, se me consigo livrar desta pasmaceira”, responde, com alguma esperança que isso aconteça.   

Casado, pai de dois filhos [a filha, Isabel Zambujal, é autora de literatura infanto-juvenil] e avô de uma neta, Mário Zambujal é também o atual presidente do Clube de Jornalistas. Está no lugar há 12 anos, e há alguns que pede para se fazer a assembleia-geral de substituição… sem ser ouvido, conta. “Finalmente, parece que vai acontecer em breve”. Argumenta que 2não faz sentido permanecer no cargo, porque não tem a mesma disponibilidade que tinha e já não conhece quase ninguém nas redações.

Com uma longa carreira na escrita, chegou-lhe o reconhecimento em forma de comendas. Em 1984, foi designado Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Mais tarde, em junho de 2016, foi distinguido pelo seu percurso como jornalista e escritor com a Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Lisboa e pela editora Clube do Autor.

Diz que a primeira condecoração teve sabor a carinho. “Foi uma forma de me tratarem bem, de reconhecimento pelo que tenho feito e, portanto, sensibilizou-me. Mas não me deu nenhuma espécie de vaidade nem presunção. Foi uma coisa bonita que me aconteceu, mais nada”. A sua vida também tem sido bonita em muito aspetos, pessoal e profissionalmente – neste último campo, reconhece-a muito movimentada e preenchida. E se não sente a felicidade “plena” é porque ele não existe, “já que a felicidade não depende só do que nos acontece a nós, mas também do que acontece às pessoas de quem gostamos, sejam familiares ou amigos”.

Há anos, numa entrevista, Mário Zambujal admitia que o que lhe dava mais prazer era fazer, em cada momento, aquilo que lhe apetece. Talvez por isso, mantenha o vício de continuar a fumar. “Faço-o há 70 anos, pois tenho a impressão que comecei com 13 ou 14 anos. Acho péssimo! Recomendo sempre às pessoas que não sigam o meu exemplo, mas continuo, embora às vezes pense em abrandar. Estou tão habituado a isto, até ao clique do isqueiro, ao gesto de acender o cigarro… é todo uma mecânica que está enraizada a mim”. 

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