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Gábor Tompa: “O teatro é o espelho em que se reflecte a natureza”

Sendo a obra de um homem de teatro “prismática”, como assinala o professor, escritor e crítico de teatro George Banu, na medida em que “implica o momento presente do ato artístico, bem como a atenção que dedica aos seus aspetos pedagógicos ou mesmo à sua responsabilidade institucional”, a de Gábor Tompa é disso uma prova evidente. “Ele pertence à família dos artistas que não se confinam ao palco, mas são, simultaneamente, construtores, promotores de pessoas e lugares. Tompa é um encenador prolífico, e nunca abandona a sua vocação por excesso de trabalho exterior à sua missão fundamental, que é o palco”.

George Banu sublinha que “entre aulas, viagens ou compromissos mediáticos”, o encenador, nascido na Roménia em 1957, “regressa sempre ao seu principal território de eleição, o qual, para um artista, representa confirmação, reconciliação e redenção. É aí que um encenador se redime e realiza. É aí que se dá o seu verdadeiro encontro consigo mesmo”.

Talvez resida nessa sua “obra prismática” enquanto homem de teatro a explicação para Gábor Tompa somar mais de uma centena de peças encenadas, de “Dias Felizes”, de Samuel Beckett, com que se estreou em 1979 no Theatre Academy de Bucareste, ou de “Woyzeck”, do alemão Georg Büchner, que levaria à cena dois anos depois, a “Ricardo II”, de William Shakespeare, em 2019, passando por “À Espera de Godot”, também de Beckett, a peça que o trouxe ao Teatro Nacional de São João, no Porto, e que pode ser vista online até 27 de março.

Acrescenta George Banu que “para Tompa, neste museu vivo do palco que é o repertório, a atração não reside no autor ou no período histórico, mas na própria obra-prima. Ele sente esse fascínio como uma oportunidade para questionar não apenas um texto célebre, mas também o próprio teatro que se sujeita a esse desafio”. É, se quisermos, o teatro enquanto “espelho”, para utilizar uma expressão de Hamlet referida pelo próprio Gábor Tompa. “É o espelho em que se reflecte a natureza e o que acontece no mundo. Pensei que, na medida em que o teatro é um encontro entre os que estão em palco e os que estão na plateia, ou no espaço comum, o mais importante é a experiência de as pessoas verem-se no espelho dos outros e de aceitarem melhor a crítica ou a imagem horripilante que se mostra da humanidade e da esperança”.

Numa entrevista a João Duarte Oliveira, transmitida online – e acessível nesta página no Teatro Nacional de São João -, o encenador e atual presidente da União de Teatros Europeus refere-se ao teatro enquanto “ponte entre culturas”. E fá-lo, não por acaso, depois de recordar o início do seu percurso profissional numa Roménia ainda dominada pela ditadura comunista de Nicolae Ceausescu, presidente do país entre 1974 e 1989. Um início onde chegou a passar pela prisão, em 1982, quando a policia secreta do país, a Securitate, procurava descobrir o paradeiro do editor de uma publicação subversiva chamada “Contrapontos”, escrita manualmente ou à máquina de escrever, e distribuída de forma clandestina, durante anos, pelas caixas de correio.

“Ameaçaram-me de que nunca mais poderia encenar, mas mantiveram-me lá apenas dois dias. Depois disso fui perseguido, eu conhecia exactamente qual era o carro (…) já éramos perseguidos antes mas não sabíamos. Passei a saber. Portanto, era mais assustador, porque eles queriam que soubesses que estavam de olho em ti. Algumas peças foram proibidas”. 

Conseguiu encenar “Hamlet”, de Shakespeare, no Teatro Húngaro de Cluj, a terceira maior cidade romena, em 1987, embora a peça acabasse por ser proibida, passadas algumas sessões.  “Por causa da intensificação da ditadura, da censura, da pobreza, da falta de tudo no país, era quase impossível que alguma passagem crítica não estivesse a falar sobre o poder. Se alguém dissesse, numa comédia, que não havia carne no talho, as pessoas aplaudiam, porque era a situação existente. Tornaram-se mais vigilantes nos últimos anos, ao ponto de pensarem que se fazes ‘Ricardo III’ é porque vais falar do Ceausescu”, recorda Gábor Tompa.

Na entrevista a João Duarte Oliveira, o encenador lembra que após a sua passagem pela prisão, e na sequência da distribuição de “Contrapontos”, o absurdo chegou ao ponto de as pessoas passarem a ser obrigadas a declarar a propriedade de uma simples máquina de escrever e a levá-la todos os anos à polícia, juntamente com uma amostra dos caracteres. “Eles conferiam se não tinhas alterado a máquina, se tinhas alterado as letras ou eram as mesmas.  Percebiam se era usada para escrever alguma espécie de texto subversivo, espalhado secretamente de modo ilegal”. 

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