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Implantação da República. Notícia chegou a Évora pelos empregados do telégrafo

SW Portugal texto

As primeiras notícias chegadas a Évora no dia 5 de outubro de 1910 foram contraditórias. Pelas 5 da manhã, o governador civil, Abílio de Lobão Soeiro, recebe um telegrama de Lisboa, que se apressa a fazer chegar ao “Notícias d’Évora”. Noticia o jornal, na edição desse dia, que a insurreição republicana estava praticamente controlada. Poucas horas depois, a cidade agita-se com a distribuição de um folheto pela Comissão Municipal Republicana de Évora dando conta de que, afinal, a revolta triunfara e a dinastia dos Bragança já pertencia ao passado.

O folheto apelava “à população eborense” para que “neste momento de extremada efervescência”  política e social “mantivesse a máxima calma” e que não permitisse alterações da ordem pública.

Dias depois, já é o “Notícias d’Evora” a relatar os acontecimentos desse 5 de outubro de 1910: “A notícia da implantação da República chegou a Évora por volta das 11 horas da manhã de quinta feira. Os empregados telegrafo-postais desta cidade deixaram o serviço a essa hora e, correndo à desfilada pelas ruas, não se podiam conter que não fossem soltando vivas à República, vivas que, se a uns deixava incrédulos ou indiferentes, a muitos assustava como coisa inesperada e a outros servia de aviso para expandirem delirantemente o seu entusiasmo”.

O comércio já não reabriu da parte da tarde e os operários não compareceram ao trabalho no período vespertino para poderem saudar livremente, mas devidamente acompanhados pelos mais conhecidos elementos republicanos, a vitória de um movimento que prometia lançar o país num novo tempo de progresso e fraternidade. A República seria proclamada pela no edifício onde hoje em dia funciona a guest house Évora Inn. Rematava o jornal: “Graças aos conselhos asisados dos elementos mais conhecidos entre os adeptos da República, as manifestações foram sempre decorrendo entre o maior entusiasmo”. E de forma ordeira, como pedia o folheto.

O proprietário Estevão da Cunha Pimentel é empossado pelo Governo Provisório como governador civil de Évora. E é ele quem irá, dois dias depois, nomear a comissão administrativa do município: o médico Júlio do Patrocínio Martins torna-se presidente da Câmara, prometendo “lealdade às instituições republicanas que simbolizam a Pátria reunida” e trabalhar “pela felicidade do município, com moralidade, progresso, economia e justiça”.

As comemorações, propriamente ditas, realizam-se no domingo, 8 de outubro de 1910. “Na ainda Praça de D. Pedro IV (atual Praça Joaquim António de Aguiar) , o grupo de Artilharia da Montanha disparou uma salva e a Banda de Infantaria 4 tocou no Quartel-General. Na Câmara Municipal, o vice-presidente, Manuel Gomes Fradinho, declarou que estava ter minado o período revolucionário do 5 de Outubro e a República consolidada. Depois da intervenção de outros vereadores e cidadãos, como o professor de liceu Benjamim Vasques de Mesquita, as bandas de Infantaria e da Casa Pia, juntamente com os elementos da vereação presentes, dirigiram-se para o Quartel-General para cumprimentar o seu comandante”, relata Ana Cardoso de Matos (“Roteiros Republicanos”, Lisboa, 2010).

Pelas ruas gritaram-se vivas à República e à pátria. “De resto, parece ter havido a necessidade de manter uma ligação permanente entre o poder civil e os militares, com os oficiais a discursarem espontaneamente das janelas dos quartéis e as bandas do Exército a tocarem nas principais artérias da cidade, como a Praça do Giraldo”, anota a mesma autora, acrescentando que os festejos culminaram com uma marcha formada pelo vice-presidente da Câmara, por alguns vereadores e pela Banda do Grupo dos Amadores de Música que, saindo da Praça do Sertório percorreu as ruas da cidade gritando novamente vivas à República e à pátria, tocando A Portuguesa e a Maria da Fonte, e cumprimentando os quartéis militares”. 

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