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Livro reúne testemunhos sobre vida e obra de Luís Amaro

Texto Júlia Serrão

“Era o mais discreto dos seres e também um dos mais procurados por quem se dedicava ao estudo da literatura portuguesa”. A declaração é do ensaísta e crítico literário Eugénio Lisboa em “Evocar Luís Amaro”, o livro da Cosmorama Edições que reúne testemunhos originais de amigos e admiradores sobre a vida, e sobretudo a obra, daquele que muitos consideram um dos mais brilhantes intelectuais portugueses. Professora de História, Francisca Bicho – que está entre os organizadores da obra, com António Cândido Franco, António José Queiroz e Paulo Samuel – diz que o propósito “é mais do que lembrar, é evocar” o homem.

Num artigo para o “Observador”, Vasco Rosa, homem de letras que vem recuperando o espólio de autores importantes do século XX, chama a Luís Amaro “um príncipe do serviço”. Escreve: “Quem o observe à distância e atente nos seus modos educados, na gentileza polida e na máxima descrição, não pode adivinhar quanto a literatura portuguesa deve a este homem raro”. A matéria foi publicada um dia depois da sua morte a 24 de agosto de 2018, aos 95 anos. Segundo o autor, escrevera “alguns parágrafos” dias antes, no âmbito de um trabalho que estava a fazer para Colóquio/Letras, de que Luís Amaro foi secretário de redação, diretor-adjunto e consultor editorial, sucessivamente ao longo de duas décadas e meia. Quando em 1971 aceitou o convite para fazer parte da equipa da revista da Fundação Calouste Gulbenkian, já era nome maior da edição literária e de outros ofícios associados ao mundo dos livros. Um percurso iniciado e apurado ao longo de 25 anos na Editora Portugália, revendo e editando trabalhos de grandes nomes da prosa e da poesia portuguesa.

O AUTODIDATA E O LUGAR DA ESCRITA Francisco João Luís Amaro nasceu a 5 de maio de 1923, em Aljustrel. Para onde os pais, provenientes do concelho de Almodôvar, se haviam mudado, por ali existirem, então, “mais oportunidade de trabalho e de negócio, mesmo para um modesto albardeiro, como o seu progenitor”, escreve Francisco Colaço, ex-autarca de Aljustrel, em artigo publicado na Revista “Alentejo” (Casa do Alentejo), por altura da morte do homem que dedicou a vida à literatura. Também (re)publicado em “Evocar Luís Amaro”.

Quarto e penúltimo filho de uma família pobre, aos 10 anos, e com o ensino primário concluído “com distinção”, já estava a trabalhar no cartório do advogado luso-goês, Adeodato Barreto, que também era escritor e poeta, onde aprende sozinho a escrever à máquina. E aos 13 incompletos, sai de casa atrás do sonho de ser jornalista. Chega a Beja para viver, e trabalhar como estagiário no “Diário do Alentejo”, onde se inicia na revisão de provas, e assalariado na Biblioteca Municipal. “Conheço, aí, de passagem, o poeta bejense Mário Beirão, o romancista Manuel Ribeiro (de grande nomeada na época), e Julião Quintinha, colaborador quase diário do ‘Diário do Alentejo’ (era profissional do jornalismo)”, contava na bibliografia que escreveu para a Colóquio/Letras. Onde também refere a sua estreia como cronista aos 12 anos e meio com “Alentejo” para o semanário bejense “Ala Esquerda”, a que se seguem outras colaborações com vários jornais.

A forma como encarou a sua infância ficaria registada numa entrevista que deu em 2005: “em rigor talvez não o fosse”. António Cândido Franco, professor no departamento de Linguística e Literatura da Universidade de Évora, autor de extensa obra publicada e amigo íntimo de Luís Amaro, confirma que ele “ficou muito marcado” pelo passado. “Teve uma infância à Oliver Twist, de menino quase sem família e obrigado a procurar o seu sustento”, diz ao “Diário do Alentejo”, em entrevista escrita. “Aquela saída de casa tão precoce, e da qual nunca se soube a razão, e que não parece ter sido apenas a pobreza remediada da família, marcou-o com uma dedada suja que o amarrotou para sempre”. Recorda que Amaro tinha uma sensibilidade “muito apurada”, e o que viveu até à “primeira adolescência” nunca o “largou”: “Reviveu-o sempre, a propósito das mais pequenas coisas, mas sem grandes queixas. Aquilo era uma dor fina, interior, escondida, que só às vezes, aos mais íntimos, ele deixava entrever”.

DÁDIVA OU O REGISTO POÉTICO Em finais de 1939, Luís Amaro muda-se para Estremoz para a redação do jornal “Brados do Alentejo”, a convite do diretor Marques Crespo, de onde sairá em agosto de 1941. É sua última paragem no Alentejo. Em setembro desse ano, através de Agostinho da Silva – que não conhecia pessoalmente, “mas de cujos cadernos culturais Iniciação e Antologia era assinante”, menciona na referida bibliografia – consegue emprego na Livraria Portugália, em Lisboa, como caixeiro. A sua inteligência dá imediatamente nas vistas, e é elevado à categoria de revisor e editor literário da recém-fundada Portugália Editora. Na função de revisor-editor, passaram pelas suas mãos textos de grandes nomes da literatura contemporânea, tanto em prosa como poesia: de Manuel da Fonseca a Sebastião da Gama, de Vergílio Ferreira a José Régio, Soeiro Pereira Gomes, Jorge de Sena ou David Mourão-Ferreira, entre muito outros. Com todos criou uma relação também de amizade.

Em meados de 1948, uma doença pulmonar prolongada trá-lo de novo ao Alentejo, a casa dos pais. “Onde, convalescente, me demoro até começos do ano seguinte; idas semanais, na camioneta, a Beja, para tratamento pneumotórax (…) Na primeira quinzena de janeiro, regresso a Lisboa, ao emprego que nunca me faltou, embora de magros honorários (e bem magrinho que eu era)”, comenta na mesma autobiografia. Quando volta à capital, incentivado especialmente pelos amigos Sebastião da Gama, Raul de Carvalho e João Pedro de Andrade, publica o livro de poemas “Dádiva”. E 26 anos depois, em 1975, o segundo título: “Diário Intimo – Dádiva e Outros Poemas” (com reedições em 2006 e 2011), que reúne os 60 poemas dados a conhecer em “Dádiva” e 35 novos em coletânea a que chama “Diário Íntimo”.

Autor e crítico, António Ramos define-o como “um poeta predominantemente melancólico e disfórico”. Um poeta “fiel a esse espaço interior a que se chama alma, e a sua poesia é a tentativa permanente de se integrar nela ou de a habitar, mau grado todas as agressões do mundo exterior (…) o que ela diz é sempre a pureza do sonho irrealizado mas vivo na sua virtualidade permanente que ilumina a vida e secretamente a alimenta”, pode ler-se na Infopédia.

O escritor e ensaísta Álvaro Manuel Machado, citado pelo também ensaísta e poeta Fernando Guimarães em “Evocar Luís Amaro”, resume a sua obra poética: “Luís Amaro cultiva acima de tudo um lirismo do que é rigorosamente íntimo e vago no imaginário quotidiano”. Do seu longo e riquíssimo curriculum consta ainda a colaboração assídua na página literária do ‘Diário de Notícias’, dirigida por Natércia Freire. Em 1951, funda a ‘Árvore-folha de poesia’, com Luís Moita, António Ramos Rosa, Raul de Carvalho e José Terra. A revista que não irá resistir à censura do Estado Novo, desaparecendo em 1953.

GENEROSIDADE HUMANA E INTELECTUAL Luís Amaro não voltaria a publicar. “Era um poeta comprometido consigo e com a musa, não com o mediatismo ou com as editoras”, opina António Cândido Franco. “Só dava poema quando tinha mesmo de dar. Saía de dentro, numa sinfonia cristalina e rarefeita, correndo à solta como num sonho inesperado; não era resultado de nenhum esforço penoso, de nenhuma conquista laboriosa. A poesia nele era gratuita e humilde”. Explica que Luís Amaro, como autor, não gostava de chamar a atenção. “Tinha um sentido feroz da privacidade”. Não lhe agradavam os ritos públicos “com etiquetas e retratos”, podendo ter sido “este pudor” a levá-lo a abandonar gradualmente a escrita, “desencantado com uma literatura que se fazia a mor das vezes em bicos de pés, por exibicionismo mediático e ambição social”. Sublinha: “Ele gostava da sombra, da solidão ou da companhia fraterna e íntima dum amigo escolhido. Aí, nesse conciliábulo a dois, no máximo a três, mostrava-se solar, caloroso, expansivo, generoso – o ‘camarada do sol’ a que um poema seu alude”.

Por outro lado, esteve sempre disponível para dar referências, orientar e aconselhar trabalhos e dissertações de outros autores, de linguistas a filósofos e historiadores. Com a enorme generosidade humana e intelectual que o caracterizava. E quase timidez, segundo os amigos.

“Aquilo que hoje guardo religiosamente nas minhas pastas e arquivos sobre Herberto Hélder, sobre Florbela e tantos outros, os entornos de uns e de outros, extravasam fotocópias que me enviaste com a tua letra aberta e franca, apontando-me o que eu não via e nem sabia”, testemunha a poeta Maria Lucia dal Farra, em “Evocar Luís Amaro”, numa espécie de diálogo com ele.

António Cândido Franco diz que Luís Amaro “preferia ver os outros a ganhar prémios, do que ganhá-los”. Adiantando que nem “nunca teria tido coragem de se apresentar diante um júri” para receber um prémio seu. Mas estava sempre presente para felicitar os eleitos, como, aliás, fez com Saramago. “Era um ser raríssimo, excecional, desses que só condições muito espaçadas e especiais são capazes de criar”, diz, concluindo: “Se soubermos olhar a sua vida, não esquecendo o seu exemplo, o seu legado pode constituir hoje um ponto de referência para aqueles que querem uma confraria das letras mais simples e mais humana e até um mundo menos concorrencial e mais fraterno”.

Luís Amaro passou os últimos quatro anos de vida numa residência, em Lisboa. Longe das “suas estantes e fichários” mas sempre disposto a ajudar, lembrava Vasco Rosa no artigo do jornal digital. Quando alguém precisava de assessoria, “mandava vir de sua casa algum maço”, onde registara “dados bibliográficos ou outros”. “A longevidade” não lhe havia roubado “lucidez, memória e macieza”. A mudança para o lar acontece algum tempo depois da morte da mulher – quando casaram, ela tinha 40 anos, ele 35, e não deixaram filhos – sobretudo pela idade avançada e porque a saúde piorara, de acordo com o historiador António José Queiroz.

No livro, dá conta de uma carta que Amaro lhe escrevera nos primeiros tempo de viuvez, a 5 de agosto de 2013, em que “a vida”, diz, “aparentemente”, ia seguindo na rotina habitual: “Faz hoje um mês que perdi a Companheira de mais de meio século e que decerto eu não merecia. Escrevo-lhe, a si, estas linhas – as primeiras do dia – para tentar cobrar o ânimo e prosseguir a jornada”. Já na residência, continuava a trocar missivas com os amigos, a quem descrevia os ambientes e estados de alma. Alguns visitavam-no. Com outros passava algumas horas ao telefone. Talvez tenha havido outras de pura poesia. A sua. E é (quase) fácil imaginá-lo a recordar a passagem de um dos seus poemas: “No ar parado voga/Talvez uma saudade/ De tudo o que perdi”. Mas isso, nunca saberemos!

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