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Numa cidade como Évora é fundamental o investimento na mediação cultural

Paula Garcia* texto EEA Grants fotografia

A validade e a importância da arte contemporânea como um pilar de preservação e dinamização das heranças é, de facto, uma questão que considero continuamente pertinente porque o património cultural é uma realidade dinâmica. E, no contexto de uma candidatura a Capital Europeia da Cultura, a questão da herança cultural e do património cultural são uma realidade presente. Quando ligamos a arte contemporânea a esta ideia de herança cultural, ela coloca-nos muitas questões, ou não fosse a arte contemporânea também um lugar de colocar questões, muitas vezes fraturantes. 

Entre elas, há quase uma constante pertinência em perceber o que é preservar, como preservar esta herança cultural, qual é o valor que nós lhe damos à luz da contemporaneidade, do mundo de hoje, bem como por que motivo é que estamos a preservar.

Gosto muito de tratar esta questão da herança cultural sobre o direito ao esquecimento, que é algo que é muito pouco debatido. Esta ideia do direito ao esquecimento ou o dever de não poder esquecer relaciona-se, para mim, com a ideia de que a política de património deve estar sempre em progresso.

Numa Capital Europeia da Cultura, a discussão em torno da herança cultural deve ser permeável ao diálogo e ao encontro da diversidade. Acredito que só assim é que o património herdado comunica connosco nos dias de hoje e nos coloca desafios. Quando tratamos esta relação da arte contemporânea com a herança cultural entram inevitavelmente os conceitos do tempo e da memória. A herança cultural mostra-nos a realidade das sucessivas adaptações do mundo e as suas constantes mudanças. E é olhando para todo este tempo que a herança cultural nos permite ler que projetamos o futuro. O que fundamenta o facto de estarmos sempre em transição e a reinterpretar – e é a partir deste exercício da reinterpretação à luz da contemporaneidade que aceitamos preservar também o que é negativo e o que é positivo nesta herança. Todo este património, toda esta herança, tem uma grande carga de vulnerabilidade, ao nível tangível e intangível.

A arte contemporânea, de facto, preserva e dinamiza as heranças culturais porque reclama a memória e levanta um conjunto de novas dinâmicas em torno desta herança. Ela atualiza e ativa novos discursos sobre herança cultural e, por isso, proporciona-nos uma visão muito dinâmica do mundo. A ideia de recurso à arte contemporânea para projetar esta herança cultural permite-nos, também, travar uma visão conservadora do mundo e, ao contrário do que muitas vezes receamos, acompanha e estimula uma questão central dos povos – a questão da identidade. Se é central a identidade para os povos, então, ela é viva e vai tomando valores diferentes ao longo da história, preservando e dinamizando a herança cultural porque questiona e obriga a leituras a partir de novas referências.

A relação que a arte contemporânea desenvolve com a herança cultural é precisamente este lugar do questionamento e, por isso, dá-lhe um novo protagonismo pela necessidade de a revisitar e interpretar. E isso é muito estimulante para ambos os lados. Ou seja, a herança cultural estimula o pensamento contemporâneo e, por outro lado, este desafia esta herança numa perspetiva de presente e de questionamento do futuro. O que nos mostra que o tempo e a memória devem ser respeitados porque nos mostram que o mundo é vivo e que poderá ser melhor entendido e estimado se for preservado e revisitado. E a arte contemporânea tem esta urgência de revisitar e que requestionar. 

A candidatura de uma cidade a Capital Europeia da Cultura é uma oportunidade de mostrar que esta herança cultural pode e deve ser reinterpretada à luz da contemporaneidade. As circunstâncias políticas e sociais levam-nos muitas vezes a reequacionar a herança cultural e o entendimento que temos sobre ela. A arte contemporânea numa cidade candidata a Capital Europeia da Cultura resgata a herança cultural para nos colocar a todos em diálogo, não só em diálogo no contexto europeu, mas no contexto mundial porque ela evidencia de facto que estamos sempre em relação. 

Évora, e o Alentejo em geral, é muito rica nesta ideia do mundo intercultural porque as camadas são muito visíveis. Um olhar atento ao Alentejo evidencia muito estas camadas de herança e revela-nos a dinâmica de construção de identidades porque estamos sempre em mudança e em relação. E esta candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura, tomará, obviamente, a arte contemporânea como uma oportunidade para nos mostrar que a herança cultural revela-nos também os conflitos do mundo, as questões de segregação, as variações dos direitos e dos deveres, o lugar do indivíduo, o lugar do coletivo, os lugares da hegemonia, os lugares da democracia. 

Ou seja, continuamente necessitamos de nos pôr em causa e a arte contemporânea permite-nos este fôlego para estas abordagens complexas e interpretações que muitas vezes a obrigam a discussões que são altamente fraturantes. Veja-se como hoje se agarra e interpreta, por exemplo, um texto de Gil Vicente ou de Shakespeare, como entendemos os sinais numa pintura de Goya e como a revisitamos, ou o fulgor artístico em torno do trabalho de Francisco de Holanda. Ou seja, se a herança cultural coloca o conflito entre a lembrança e o esquecer, a arte contemporânea quando revisita, questiona e estabelece outros ângulos de relação, trazendo-a para os discursos contemporâneos e tornando esta herança cultural muito mais próxima de nós. 

Numa cidade tão rica como Évora isto torna-se desafiante e não inibidor, principalmente porque coloca muitas questões. Uma delas, que para mim é fundamental ser trabalhada, independentemente de se tratar de uma cidade que se posiciona para Capital Europeia da Cultura ou não, são os mediadores culturais. Numa cidade, sobretudo com este património, por exemplo, de Évora, a questão do investimento na mediação cultural é absolutamente fundamental. A atividade dos mediadores culturais e dos artistas tem uma relação muito estreita com a investigação da história, a investigação científica e com as dinâmicas de património. E quando todos eles entram em diálogo e trabalham em conjunto é altamente desafiante, seja para os que cá vivem, seja para o desenvolvimento até de um sentimento de pertença, seja para aqueles que querem estar e que visitam Évora e o Alentejo em geral. 

Acredito que estando todos a trabalhar em conjunto, uma cidade ganha uma escala europeia e mundial muito interessante. Évora, com toda a sua herança cultural, tem todos os requisitos para ter uma enorme escala nacional e internacional. Para tal, é fundamental investir nestes atores de terreno que, quando se juntam, são preponderantes para este ganho de escala.

* Coordenadora da equipa de missão da candidatura de Évora a Capital Europeia da Cultura 2027. Texto da intervenção proferida na conferências “As Artes de Rua no Desenvolvimento dos Territórios”, promovida pela associação Setespinhas e pela ALD Produções (proprietária da SWPortugal) e co-financiada pela Direção Geral das Artes

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