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2021-10-23
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“Se a criatividade chocasse com as tradições, o presente seria eterno”

Duarte Guerreiro*, texto | Gonçalo Figueiredo fotografia

Quando colocamos a criatividade e inovação versus o património e as tradições, partimos de uma lógica ambivalente e maniqueísta, segundo a qual uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Mas não tem que ser assim. A menos que tenhamos uma visão cristalizada, preservacionista, no mau que isso pode ter, de determinado elemento patrimonial ou de determinada tradição. 

Penso que é perfeitamente possível o casamento entre a inovação, a criatividade e o passado. Aliás, isso é o presente. O presente que temos hoje é o conciliar, o casamento, as fusões possíveis entre a herança que nos foi deixada – que o nosso passado coletivo nos deixou, que os nossos antepassados nos deixaram (e que podem ser de antepassados nossos ou não, pois isto pode ter a ver com o território onde vivemos ou com a herança cultural associada) – e, ao mesmo tempo, a criatividade que se foi imprimindo. Senão ainda estaríamos a lascar pedra numa gruta. Se a criatividade chocasse tanto com as tradições, o presente seria eterno e nunca teríamos futuro.

As tradições e o património são parte de uma cola que nos une e isso não é necessariamente bom nem mau. Convém que tenhamos a consciência que isso nos dá um certo sentimento de pertença e constrói a nossa identidade: é o lastro da marca de parte do tempo. Parte porque não sobra tudo. O património nas suas diferentes valências também se vai perdendo, também se vai esquecendo ou vai sendo destruído. O presente é precisamente o que sobreviveu aliado à criatividade. A criatividade de ontem que se tornou património e tradição e a criatividade de hoje, a que sobreviver, que será património e tradição no futuro. Convém que tenhamos essa consciência: é esse passado que nos dá sentimento de pertença, que nos confere identidade. 

Enzo Traverso em “O Passado, Modos de o Usar” fala desse sentimento de pertença e dessa construção de identidade de uma forma brilhante e aponta para a importância de termos uma postura questionadora do património e das tradições. No sentido de perceber como é que se chegou aqui, que significados é que essas tradições e esse património carregam e em que é que nos influenciam enquanto “animais” sociais e históricos.

Num tempo como o de hoje, em que alguns escritores dizem que vivemos numa sociedade do vazio – outros dizem que vivemos numa modernidade líquida – podemos falar num tempo que é de algum alheamento das pessoas, enquanto indivíduos. Numa lógica que alguns autores definem como privatizante. Agrada-me o uso desse termo porque, de facto, vivemos num tempo não só privatizante, mas em que somos cada vez mais genéricos, repetíveis e comuns. E isso não é culpa da herança que nós temos nem da criatividade que se gerará. É culpa do tempo presente, o que envolve leituras políticas, sociais ou económicas. O que quero dizer é que vivemos num tempo onde, aparentemente, e isto não é vaticinador de desgraça nenhuma, começa a haver menos propósito e menos significados.

Importam os significados do que nos rodeia, importa gerar novos significados, fazendo com que os nossos valores se adaptem para não cairmos no isolacionismo desta lógica privatizante de que somos só a nossa herança, que esta é tudo e nada mais há além disso. O importante é percebermos que somos cidadãos do mundo numa sociedade globalizada, embora isso seja mais aparente do que outra coisa porque o que é globalizado são as lógicas económicas. Ainda assim, temos contactos com outras culturas como nunca tivemos e somos todos vítimas, e vítimas não é no mau sentido, é o que é, de processos de aculturação.

E isso aconteceu ontem, acontece hoje e acontecerá amanhã. Somos cidadãos do mundo, mas convenhamos que enquanto cidadãos do mundo cada um tem as suas raízes. E se perdermos as nossas raízes, isto é, se deixarmos de dar importância às heranças, tanto às boas como às más, não perceberemos como é que chegámos aqui. E é essa a importância da História enquanto área do saber, mas também do património e das tradições. 

O futuro nasce, obviamente, do passado, mas o passado não é só recordação. O passado tem significados. Muitas das vezes quando falamos em inovação, e eu confesso, a culpa é minha, tenho um bocadinho de medo. E não é que seja contra a inovação, tem a ver com uma certa gramática empresarial, e nada contra os empresários, mas é uma certa gramática economicista em que se vêem o património e as tradições aliados a conceito de inovação que, perdoem-me o vernáculo, tem mais a ver com a “engorda”. Ou seja, falamos de uma lógica que usa o património e as tradições para gerar valor económico. Nada contra, aliás, pode ser uma das formas da preservação de algum património e de algumas civilizações, o que digo é pode ser por aí, mas não deve ser só por aí. Muitas das vezes, quando falamos na preservação de algum património construído, esta ideia vinga e é importante porque há muita gente que vive disso e é uma forma dessas pessoas sobreviverem, tal como o património e as tradições, mas não é nem pode ser a única forma. 

Já fazia parte da direção da Sociedade Joaquim António de Aguiar quando no âmbito de uns apoios à Cultura por parte da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo só se poderiam candidatar projetos novos. Isto é, projetos que não tivessem mais de três edições e isso teve um efeito perverso. Por exemplo, a Joaquim António de Aguiar fazia (e faz) um Festival de Teatro de Amadores em Évora desde 1965 e, por isso, não estava habilitada a candidatar-se, a menos que mudasse o nome do festival. Ou seja, a menos que renegasse o seu passado. O festival podia ser em tudo a mesma coisa que tinha sido antes, não podia era ter o mesmo nome. O mesmo se passava com a Bienal Internacional de Marionetas de Évora, com a iCompanhia de Dança Contemporânea de Évora, ou com a Música nos Claustros, do Eborae Música.

Houve um conjunto de promotores e divulgadores de cultura que não puderam candidatar-se. Isto para falar de uma política deliberada de apagamento do passado. Aí estaríamos a valorizar muito mais a inovação do que tudo o que estaria para trás. É uma proposta, mas é uma proposta que podia ter levado a que um conjunto de instituições e de agentes – e quando falamos de instituições e de agentes estamos a falar de agrupamentos sociais, de agrupamentos humanos que têm uma história e uma memória coletiva, têm a sua própria identidade, e cujas iniciativas corporizam e materializam essa identidade – não realizassem as suas iniciativas, com tudo o que isso acarreta.

E, já agora, quando falamos também de património, importa reforçar que o património não é só pedra e cal. O património tem também uma noção de imaterialidade, que a Unesco introduziu, e que o professor Guilherme d’Oliveira Martins, também presente nesta iniciativa, falou num livro da fundação Manuel dos Santos. 

Dantes havia muito essa visão que o património era só o que era construído e material. Mas há um património imaterial valiosíssimo nas coletividades de cultura recreativa e desporto, que é a voz dessas pessoas. A história viva desses coletividades materializa parte da história de determinado local e, ao mesmo tempo, empodera essas pessoas conseguindo dar outras visões da história e mostrando quais os significados e valores que essas pessoas transportam e que as transformaram. E isso parece que é algo um pouco ortodoxo, mas a verdade é que a história tem diversas versões e visões, é ela própria um discurso e uma narrativa, como Enzo Traverso também disse. 

O património não é só pedra e cal, é também as mãos que trabalharam aquela pedra e aquela cal. A Quinta da Esperança, em Cuba, é um espaço lindíssimo, riquíssimo do ponto de vista material, mas se nós tivermos uma abordagem apenas contemplativa do património ficamos deslumbrados com a beleza, iremos avaliar do ponto de vista arquitetónico o que é que temos e o que não temos e podemos até inventariar. Mas se tivermos uma visão reflexiva, conseguimos perceber mais além do que aqui está construído, conseguimos perceber porque é que se construiu aqui, quem é que aqui habitou e com que valores, por exemplo. 

Quando falamos de construção cultural há uma frase que me agrada: “A arte é uma expressão da nossa sensação de que o que existe é insuficiente”. Isto faz parte da nossa natureza e da nossa condição humana – tudo o que nos existe é-nos sempre insuficiente e é isso que nos traz, do ponto de vista pessoal, muita infelicidade. Precisarmos sempre de nos superar e de querer coisas novas traz-nos muita infelicidade e ansiedade pessoal e, às vezes, coletiva, mas, ao mesmo tempo, é o que nos faz seres históricos e nos vai acrescentando individual e coletivamente. 

A criação, neste caso, a criação artística, e quando falo de criação artística falo de inovação cultural, tem a ver com essa necessidade humana. A criação artística permite um conjunto de coisas, como lançar a semente a novas manifestações. Essa criação e essas sementes podem ser manifestações artísticas, mas dessas manifestações artísticas nascem outras coisas. Podem gerar convivência, podem gerar encontro e devem gerar partilha. A arte sem partilha será complicada, a menos que seja um exercício de autossatisfação individual. 

Seguindo um pensamento da Hannah Arendt sobre intervenção política, a arte tem essa dimensão. Mas essa dimensão política é o quê? É a intervenção coletiva na vida da Pólis que pode servir para definir quais são as regras com que devemos viver coletivamente, mas acrescenta mais. Se olharmos para o passado da democracia ateniense, percebemos que essa democracia, essa Pólis, vivia muito da criação artística. Criação artística que lhe dava identidade, mas que também lhe dava alento para prosseguir num projeto de política. A arte teve, assim, um papel determinante. Aliás, se não fosse pela arte o que é que conheceríamos dessa história ou de outra? Sem esse carácter transformador, a arte pode vir a deixar de o ser. 

É, também, um instrumento democrático porque potencia a intervenção dos cidadãos na comunidade pois fomenta o encontro entre os agrupamentos sociais, coletividades de cultura recreativa e desporto ou outras associações quaisquer. Ou seja, fomenta a convivência social pela fruição coletiva da obra, estimula a abstração humana e a nossa capacidade de pensamento, a nossa capacidade de refletir acerca de alguma coisa. Sem a criação artística seria difícil ou seria mais difícil fazermos isso. E, por outro, deve fomentar o diálogo e isso, parece comum, mas faz falta. A própria dialética do diálogo é o que transforma, é o que soma o passado ao presente e o torna futuro. 

E então há duas perspetivas de ver o património: uma, que de acordo com o professor Carlos Fortuna, é modernista, ou seja, tecnicista, apontando para a produtividade com aquela gramática empresarial que eu estava a falar; e pode haver outra, mais patrimonialista, ou seja, mais assente nos costumes, nos rituais, acabando por ser mais preservacionista. 

Carlos Fortuna, contudo, sugere uma terceira via (que me parece boa) que é a da reinvenção. Eu que nasci Évora, vivo numa cidade que é Património da Humanidade, sinto que muitas das vezes é fácil cair numa armadilha conservacionista, preservacionista e, neste caso, estando a falar do património construído, é fácil e até mesmo perigoso. Porque, em última instância, isso leva-nos ao beco sem saída onde quase não há futuro. Para esse conservacionismo, no caso do Alentejo, só falta andarmos com o lenço tabaqueiro vermelho, ou de outra cor, com o capotinho e com chapéu de aba larga a andar pelas ruas de determinadas zonas porque estão tão conservadas que quase não têm existência humana, já não têm vida. E a vida implica transformação e, portanto, esta visão dessacralizada implica o quê? Uma reinvenção constante que é, no fundo, uma reinvenção da identidade.

Tem de surgir de uma combinação entre a tradição e a inovação, entre o que vem e o que se ha de fazer. Desta conjugação do passado com os ditos elementos futurantes resulta o presente plausível, que não é derrotista nem utópico. Acho que esta é a perspetiva que devermos ter em relação tanto ao património construído e imaterial como às tradições. Carlos Fortuna propõe, e acho que que me posso associar, uma ideia de destradicionalização. Não significa deixar de haver tradições, mas sim recodificá-las, voltar a dar-lhes significados, reinterpretá-las – que é o que o professor também entende por uma conservação inovadora. 

Falando nas reinterpretações, e pegando em exemplos que conheço, a Sociedade Joaquim António de Aguiar, em 1965, quando fez o primeiro Festival de Teatro de Amadores de Évora inovou. Não sei se inovou na liturgia do teatro, na dramaturgia, mas na forma. Ou seja, a partir dessa data, assumimos uma alternativa aos festivais do, na altura, Secretariado Nacional de Informação e abriu-se um precedente para festivais de teatro sem que houvesse concursos, ou seja, numa lógica não competitiva. E, sem querer parecer petulante com esta interpretação, acho que isto foi um dos sinais do que viria a ser, ainda que num futuro um bocadinho distante, a descentralização cultural. Grupos a convidarem outros grupos, a aprenderem com outros grupos, oferecendo à cidade aquilo que de melhor se fazia naquele tempo. E isto foi uma reinterpretação, uma inovação não cultural propriamente dita, mas uma inovação através da cultura.

Outro exemplo é o Festival Internacional de Curtas-Metragens de Évora (FIKE) que também é dinamizado pela Joaquim António de Aguiar. Quando se fazem sessões de cinema, e isto não é novo, não inventámos a roda, mas em espaço patrimonial, classificado, podemos estar a dar novas funções a esse espaço. Porque conseguimos convidar outra gente a ver cinema, fazendo aquilo que aparece em todas as candidaturas que é a formação de públicos. E isso também é uma forma, não tanto de inovação, mas de conciliação entre o património construído e o que de melhor se faz do ponto de vista das curtas-metragens.

Outro exemplo. Quando o Grupo Cantares de Évora, creio que ainda antes da década de 2000, conciliou cante alentejano com jazz. O grupo de cantares de Évora preserva as tradições, preserva o legado, preserva o Cante e o cancioneiro, mas ao mesmo tempo não tem uma visão sacralizada do que tudo isso deve ser. Não quer dizer que não se façam outras coisas. A BIME é outro exemplo, a propósito dos bonecos de Santo Aleixo, o CENDREV traz o que de melhor se faz do ponto de vista das marionetes no mundo a Évora. 

É também de apontar o exemplo de um jovem escultor, o Bernardo Bagulho, que criou um conjunto de coisas a que ele chama as pedras rolantes, que são um conjunto de máscaras, interpreto assim, e as colocou na calçada do património classificado de Évora. Se isto há 20 anos seria impensável, hoje é possível porque alguém teve a ideia. Se ninguém tivesse a ideia não era possível fazê-lo – tirámos essa carga sagrada daquilo que o património deve ser. 

Nomeando coisas mais simples: quando, principalmente com a classificação do Cante como Património Imaterial da Humanidade, vimos surgir novos grupos de Cante já sem uma vertente tão marcadamente etnográfica, sem trajes – isso é uma reinvenção. O Cante não deixou de ser o que é, evoluiu, dando origem a reinterpretações – cantar e tocar com outras pessoas reinterpreta o Cante. Os Cantares de Évora participarem em espetáculos da Companhia de Dança Contemporânea reinventa a dança contemporânea e o próprio Cante.

E, já agora, pegando nas Janeiras, em Évora. Seria bom se nós ainda vivêssemos num tempo em que havia ranchos de homens e mulheres que no Dia de Reis ou no Ano Novo tinham que ir cantar às casas dos mais abastados para conseguirem ter comida? Acho que não. É bom nós preservarmos um certo património, mas dizer que a herança, em si, é só uma herança. 

É bom termos grupos a cantarem as Janeiras em Évora, é bom que isso fomente o encontro e a partilha entre estes grupos e o povo de uma cidade. Não é boa a realidade que levou a que se cantassem as Janeiras. Não vamos querer essa realidade, mas não deitemos fora o bom que essa realidade má gerou através da criatividade. 

Mais um apontamento: ouvir um grupo de Cante alentejano cantar ao Menino Jesus é revelador não só da capacidade criativa e artística de um povo, mas também um documento histórico. Isso significa que quando há um grupo que não tem mais nada para dar ao Menino, que não o Cante, é porque não tem o que comer. Que até dá o que não tem ao Menino Jesus. E isso é um documento histórico, essa tradição demonstra como é que vivia no grosso das camadas populares alentejanas.

Concluindo, a criação artística não tem de chocar obrigatoriamente com o património. Há momentos de colisão e esses momentos são também necessários. Subscrevo a visão do professor Paulo Rodrigues, da Universidade de Évora, de que a destruição nunca será uma boa solução, sendo que temos que ter consciência de que há heranças que nos chegam e outras que não. E devemos ter presente uma certa consciência de que devemos fazer por preservar não numa lógica cristalizadora, porque o património e a tradição artística conseguem andar de mãos dadas se houver reinterpretações e se chamarmos nova gente, dando um novo envolvimento social às obras, aos espaços, às tradições.

* Presidente da Sociedade Operária de Instrução e Recreio Joaquim António d’Aguiar. Texto da intervenção proferida na conferências “As Artes de Rua no Desenvolvimento dos Territórios”, promovida pela associação Setespinhas e pela ALD Produções (proprietária da SWPortugal) e co-financiada pela Direção Geral das Artes. Título da responsabilidade da SW Portugal.

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